domingo, 27 de setembro de 2026

Cajazeiras: uma cidade diante do medo

Rui Leitão



Há noites que o tempo não consegue apagar. Mesmo depois de um século, permanecem vivas na memória de uma cidade, transmitidas de geração em geração como uma história de medo, coragem e resistência.

Amanhã, Cajazeiras rememora uma dessas noites. Completa-se o centenário da invasão da cidade pelo bando de cangaceiros comandado por Sabino Gomes, lugar-tenente de Lampião. Foi uma noite de tiros, incêndios, saques e pavor, mas também de resistência de homens e mulheres que decidiram enfrentar a ameaça que avançava sobre suas casas e suas vidas.

Para marcar os cem anos daquele episódio, a ACAL – Academia Cajazeirense de Artes e Letras, com o apoio da Secretaria de Cultura do Município, reunirá pesquisadores e historiadores no Casarão da Rua Epifânio Sobreira, a partir das 19 horas. Será uma oportunidade para revisitar um dos capítulos mais dramáticos da história de Cajazeiras e devolver às novas gerações a memória de uma cidade que, naquela noite, precisou lutar pela própria sobrevivência.

A programação, organizada pela presidente da ACAL, professora Nadja Claudino, contará com palestras do pesquisador Wesley Rodrigues Dutra, do professor Rigonaldo Pereira e da escritora Fabiana Agra, que fará o lançamento do livro Sabino Gomes: O Carcará de Lampião. Também será exibido o filme O Carcará, baseado na obra literária do escritor Ivan Bichara Sobreira.

O ataque teve grande repercussão na imprensa. O jornal O Nordeste, da Diocese de Fortaleza, foi o primeiro a noticiar o acontecimento. Na edição do dia seguinte, estampou uma manchete que registrava a dimensão do episódio: “A próspera cidade de Cajazeiras, na Paraíba, é atacada pelo grupo de Sabino Gomes”. As primeiras informações chegaram por telegramas enviados de Lavras de Mangabeira. A notícia descrevia uma cidade surpreendida pela chegada dos cangaceiros. O medo, certamente, espalhou-se pelas ruas à medida que os estampidos dos rifles anunciavam a presença do bando.

Por volta das 23 horas, quando o grupo chegou à Rua Sete de Setembro, um estrondo rompeu novamente o silêncio da noite. Uma explosão na Usina de Força e Luz, instalada ao sopé do Açude Grande e dirigida pelo técnico José Sinfrônio, produziu tamanho impacto que os cangaceiros imaginaram estar diante da chegada de reforços policiais. O barulho inesperado contribuiu para o recuo do bando.

Foram mais de cinco horas de pavor. Enquanto os homens resistiam, famílias inteiras procuravam fugir da cidade. Mulheres, crianças e idosos buscavam abrigo nas proximidades, tentando escapar da violência que tomara conta das ruas. E, no meio daquela noite de angústia, Dom Moisés Coelho, bispo da Diocese, permaneceu em oração.

O ataque de Sabino Gomes não foi apenas um episódio da história do cangaço. Foi uma experiência vivida por uma comunidade inteira. Uma cidade que, durante algumas horas, conheceu o medo de perder suas casas, seus familiares, seus bens e a própria tranquilidade. Ao longo do tempo, escritores e pesquisadores registraram diferentes aspectos daquele acontecimento. Cada relato acrescentou uma peça à memória coletiva de Cajazeiras.

Agora, cem anos depois, a ACAL abre novamente essa página da história. Não para cultuar a violência do cangaço, nem para transformar a tragédia em lenda, mas para compreender o que aconteceu e preservar a memória daqueles que viveram aquela noite. Porque o tempo passa, as testemunhas desaparecem, as casas são reconstruídas e as ruas mudam de aparência. Mas uma cidade também é feita das histórias que guarda. Cajazeiras precisa lembrar daquela noite.

deixeseuComentário






sábado, 26 de setembro de 2026

REFLEXÕES SOBRE OS ATENTADOS NO CINE APOLO XI E RIOCENTRO


Imagens do atentado no Riocentro. Fotos: Arquivo Histórico

Na noite de 2 de julho de 1975, o silêncio do Sertão paraibano foi abruptamente quebrado no centro de Cajazeiras. Logo após a exibição do filme Sublime Renúncia, quando o público já havia sido dispersado do auditório do Cine Teatro Apolo XI, o encontro fortuito com uma espécie de bolça escolar deixada debaixo da cadeira habitualmente usada por Dom Zacarias culminou em uma explosão com capacidade de vitimar dois funcionários do cinema.

No caso do parágrafo anterior, o artefato vitimou fatalmente o soldado Altino Saturnino da Silva e o funcionário Manuel Justino Conrado, além de deixar dois feridos. O episódio, que ganhou repercussão nacional, guarda uma ligação profunda e inquietante com outro momento sombrio da história recente do país: a explosão no estacionamento do centro de convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, ocorrida na noite de 30 de abril de 1981 durante as celebrações do Dia do Trabalhador.

Separados por quase seis anos e mais de dois mil quilômetros, os dois atentados desenham uma linha contínua da atuação clandestina da extrema-direita e de setores da linha-dura das Forças Armadas durante a ditadura militar brasileira. Ambas as ações fundamentaram-se em táticas terroristas voltadas a alimentar o clima de ameaça e instabilidade, buscando frear os movimentos de abertura política ou intimidar vozes dissonantes e espaços de resistência.

Além da tensão política, Cajazeiras vivia um período de efervescência cultural e artística marcante, transformando a cidade em um polo de resistência no interior do Nordeste. O teatro local mantinha intensa produção com a montagem de peças de forte teor político-ideológico, impulsionadas pela atuação engajada de grupos como o GRUTAC, METAC e o Grupo CAJÁ.

Esse ambiente era fortalecido pela realização dos Festivais de Poesia, cujos versos e declamações abordavam abertamente os temas da repressão, da censura e do desejo de liberdade, bem como pelo Festival Regional da Canção no Sertão, palco onde compositores e intérpretes utilizavam suas músicas para denunciar e refletir sobre o momento político vivido pelo país.

No caso fluminense, o alvo era um festival de música que reunia milhares de jovens e expressivos nomes da MPB engajados na oposição. No Sertão paraibano, o alvo da bomba era essa própria efervescência política e cultural promovida no espaço físico de um cinema pertencente à igreja de Cajazeiras.

A cidade vivia uma conjuntura sociopolítica singular, marcada pela convivência entre um bispo de perfil tradicionalista, Dom Zacarias Rolim de Moura, e uma marcante presença de padres da ala progressista da Igreja Católica, muitos deles vindo de missões na Itália.

Esses religiosos mantinham forte engajamento em causas sociais e utilizavam com frequência programas discursivos da Rádio Alto Piranhas, emissora da própria diocese, como veículo de formação crítica e apoio aos direitos da população local, o que despertava, talvez, a constante vigilância do aparato de inteligência do regime.

A logística e as condições operacionais para a realização do atentado no interior do solo paraibano contavam com um terreno amplamente aparelhado pela presença militar. Para se ter uma ideia, Cajazeiras abrigava nesse tempo a guarnição do Tiro de Guerra, composto de um sub tenente, um sargento e um pelotão de cem soldados recrutas que funcionava como ponto de apoio e monitoramento para as agências de segurança do Estado.

Somava-se a isso a recente conclusão dos trechos locais da BR-230, a rodovia Transamazônica, cujas obras de infraestrutura mobilizaram o 1º Batalhão de Engenharia de Construção do Exército. A intensa circulação de comboios e máquinas, a forte presença de contingentes militares e a abundância de artefatos explosivos de demolição colocados à disposição das frentes de engenharia criaram o ambiente ideal de acesso a insumos controlados, permitindo o trânsito e a atuação ostensiva de agentes da repressão sem levantar suspeitas locais.

O paralelismo entre o Sertão e a capital fluminense se consolida de forma contundente também no manejo das investigações e no desfecho reservado a ambos os crimes. No Riocentro, a intenção de explodir o artefato dentro do pavilhão lotado para culpar a esquerda radical desmoronou quando a bomba detonou (para a felicidade dos artistas e do público presente) precocemente no colo do próprio sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, levando o comando militar a forjar um Inquérito Policial Militar de fachada para acobertar os oficiais envolvidos.

Em Cajazeiras, a colocação do explosivo debaixo do assento do bispo serviu para alimentar especulações, semeando suspeitas e acusações direcionadas ao clero progressista, aos movimentos estudantis da região e políticos de tendência esquerdista – como foi o caso do suplente de senador Bosco Barreto.

Para justificar o cerco aos focos de esquerda atuante na cidade e ao mesmo tempo minimizar a propagação do foca nesse contingente ideológico, buscou-se culpabilidade em tudo, até na inteligência popular. Fogueteiros, eletrotécnicos e pseudo de inventores, passaram ser possíveis mentores do artefato. Mas nada ou quase nada, do aparato militar foi destacado nas investigações e interrogatório que se sucederam.

Passados 51 anos, as apurações sobre o atentado ao Apolo XI foram gradativamente paralisadas e empurradas para o esquecimento institucional, assegurando a impunidade dos verdadeiros responsáveis e confirmando o padrão de acobertamento promovido pelo estado brasileiro no período autoritário e com a inoperância dos governos atuais.

cleuduarferreira

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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Manoel Correia: do Tipi para Cajazeiras



Instigado pelas histórias “que ouvi falar”, como costuma dizer a oralidade quando o tempo já levou os documentos, mas não conseguiu apagar as lembranças, chega até nós a figura de Manoel Correia do Tipi, natural de Aurora, cidade do Ceará, vizinha a Cajazeiras. Diziam que era um engenhoso homem do campo, um rurícola empreendedor, desses que aprendiam a sonhar mesmo vivendo num tempo em que quase tudo era difícil. Por conta disso, tornou-se um homem de “recursos”. As histórias que atravessaram os anos contam que possuía muitas terras, criava gado e cavalos de raças.

Dizem que Manoel Correia parecia não se conformar com o seu tempo. Mesmo vivendo no ambiente rural, mantinha os olhos e os ouvidos voltados para aquilo que era novidade, que havia de moderno. Um exemplo dessas suas investidas foi a aquisição de um rádio. Num tempo em que as transmissões radiofônicas e o sonho com a energia elétrica pareciam coisas distantes, quase impossíveis – coisas que nem sequer existiam na imaginação de muitos – ele já tinha lá no seu sítio rodeado de serrotes o seu aparelho de rádio e costumava ouvir a Rádio Nacional. Foi também ouvinte da estreia da Voz do Brasil e acompanhava o noticiário da BBC de Londres para os países de língua portuguesa.

E não ficou apenas na escuta das novidades. Foi o primeiro a usar um gerador movido a querosene para dar luz ao seu ambiente e, naturalmente, alimentar o seu rádio. Naquela paisagem sertaneja, onde a noite ainda chegava acompanhada pela escuridão, a luz produzida pelo gerador devia parecer quase uma pequena revolução. Era como se a modernidade, por alguns instantes, tivesse resolvido visitar o Tipi.

Também foi um dos primeiros a possuir um veículo na região: um Ford encapotado, ano 1921. Uma verdadeira maravilha da tecnologia para os padrões daquele tempo. Mas possuir um automóvel numa região de estradas precárias não era suficiente. Era preciso criar o caminho por onde ele pudesse passar. E Manoel Correia fez isso. Para que seu veículo pudesse sair da fazenda até a fronteira da Paraíba, construiu uma estrada de mais de 6 quilômetros, facilitando suas idas e vindas a Cajazeiras, cidade onde cultivava amizades e mantinha parte de seus negócios.

Assim como Raimundo Ferreira, seus empreendimentos em Cajazeiras seguiram o mesmo caminho. Segundo se comenta, chegou a possuir quarteirões inteiros de casas e prédios, espalhados por diversos cantos da cidade. Alguns deles ficavam em espaços nobres, como aqueles pertencentes a outro empresário local, José Cavalcanti Primo.
 
Mas Manoel Correia também tinha suas manias – e talvez sejam justamente essas pequenas particularidades que ajudam a tornar uma pessoa mais viva dentro da memória. Foi um apostador contumaz do jogo do bicho. Por conta disso, recebeu em Cajazeiras a alcunha de “Mané Piru”. O apelido teria surgido também porque conseguiu “quebrar”, por três vezes, o cambista, isto é, o dono do jogo na cidade, sempre apostando costumeiramente no piru.

Manoel Correia possuía cavalos de campo, puro-sangue escolhidos, que tratava como verdadeiras relíquias. Não eram apenas animais de criação. Tinham nome, personalidade e, de certa maneira, lugar próprio dentro da vida do seu dono. Um cavalo de nome Relâmpago, por exemplo, era montado por Mané Pedro das Braúnas, um empregado de confiança. Todos os finais de tarde, o animal era colocado para correr.

Num galope só, fazia o percurso do da comunidade do Tipi até Cajazeiras em aproximadamente uma hora e meia. E era justamente nessa chegada à cidade que se cumpria outro dos hábitos de Manoel Correia: suas apostas diárias no jogo do bicho, que, naquele tempo, encerrava-se às 18 horas. Contam que Manoel Correia jamais saía antes das quatro horas da tarde e, ainda assim, nunca deixou de fazer sua aposta.

Talvez houvesse, naquela corrida vespertina do Relâmpago, algo mais do que pressa. Havia o compromisso com o jogo, é verdade, mas havia também a cidade esperando, as amizades, os negócios e aquele pequeno ritual que se repetia ao cair da tarde. Enquanto o cavalo levantava poeira pelo caminho entre o Tipi e Cajazeiras, o relógio avançava silenciosamente em direção às seis.

E assim, entre terras, gado, cavalos de raça, rádio, luz de gerador, estradas construídas por iniciativa própria, negócios, amizades e apostas no piru, a figura de Manoel Correia do Tipi foi ficando guardada na memória de quem ouviu falar dele.

Hoje, quando essas histórias são contadas novamente, talvez o que mais sobreviva não seja apenas a imagem do homem de “recursos”, mas a de alguém que, mesmo vivendo no sertão de um tempo difícil, parecia estar sempre alguns passos adiante do seu próprio tempo.

cleudimarferreira

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domingo, 20 de setembro de 2026

CANTATA DE INVERNO

by Cleudimar Ferreira



O ronco distante das nuvens boquiabertas, espalhadas no espelho turvo do céu que ameaçava precipitar sobre a manhã daquele dia, nos alegrava e dava força para descer a colina. Meu pai, satisfeito com aquele "climão", pegou a roçadeira e os dois sacos de estopa. Passou por mim, olhou de lado e perguntou:

– Vamos?

Engoli às pressas o resto do café que ainda fumegava na caneca de ágata, agarrei a gaiola com o alçapão e o galo-de-campina, e respondi:

– Vamos!

Saímos na descida sinuosa que moldava nosso caminho em direção ao baixio. Ainda era cedo demais para aquela aventura. Passava pouco das cinco horas daquela manhã e o sol sequer dava sinal de vida, face ao cortinado de nevoeiro baixo que dificultava a visão do percurso, enquanto o tempo chuvoso encobria a terra mergulhada numa penumbra úmida e silenciosa.

Seguimos por aquele caminho encharcado em direção à roça. A cerração nos presenteava com um belo cenário, embora difuso e estranho aos meus olhos, tão diferente dos dias claros que eu estava acostumado a enxergar. Mesmo com a visão embaraçada pela névoa, seguíamos andando por aquele caminho estreito, quase fechado por mata-pasto. Íamos em busca do que naquele plantio tinha de melhor para ofertar e colher.

Quando chegamos, meu pai entrou no escuro verde do milharal, quebrando todas as espigas maduras que alcançava. Era fartura pura! Aproveitei aquele instante em que observava o trabalho do meu pai e desapareci capoeira adentro, carregando a gaiola na mão. Não precisei caminhar muito. Procurei apenas o melhor local para armar o alçapão. A oferta de pássaros naquele lugar era grande, principalmente de galos-de-campina, que pareciam surgir por toda parte aos meus olhos de menino de nove anos.

Ao voltar para o roçado, abri mais os ouvidos para os pesados barulhos dos trovões que ecoavam por trás da Serra do Boqueirão e me embrenhei novamente dentro do plantio de milho, à procura do meu pai. Após alguns minutos de busca, avistei-o mais abaixo, à beira de um pequeno riacho de águas dormidas e mansas, cristalinas e ainda geladas pela chuva torrencial que havia caído na noite anterior. Quando me aproximei, ele arregalou os olhos e foi logo perguntando onde eu estava e o que andava fazendo dentro do capoeiral. Respondi que tinha ido armar o alçapão para pegar pássaros.

Deixamos a beira daquele córrego e seguimos em direção à parte mais alta da roça. Era naquele trecho da roça de milho que ficavam os plantios de melancia, pepino e maxixe. Quando chegamos, encontramos à nossa espera uma das mais belas recompensas que aquela terra podia oferecer. Parei para contemplar, admirado, aquela exposição de frutos frescos, revestidos pelas gotas transparentes do orvalho da manhã. As melancias repousavam entre as ramas verdes, enquanto pepinos e maxixes se espalhavam pelo chão úmido, como se a chuva da noite tivesse renovado a vida de tudo que ali existia.

No plantio de melancia, meu pai começou a percorrer as ramas da fruteira, batendo levemente em cada fruto e escutando atentamente o som que produziam. Procurava a melhor, a mais madura e suculenta que pudesse encontrar entre aquelas ramalheiras. Com a experiência que tinha no cultivo daquela cultura, não demorou muito. Parou diante de uma melancia, bateu mais uma vez na casca e afirmou com segurança:

– Essa tá boa!

Em seguida, puxou da bainha a sua faca de sete polegadas e passou a lâmina na fruta. Quando a dividiu em duas bandas, revelou-se diante dos meus olhos o vermelho intenso e vivo da polpa. 

E assim ele foi fatiando... Fatiando... Até cortar a melancia em pedaços do tamanho certo para serem saboreados. Quando terminou de fracionar o fruto, entregou-me a primeira fatia. Estava fria. Docinha como o mel. Com um sabor que jamais encontrei igual. As lembranças daquele tempo pararam em mim e ficaram quardadas por definitivo – para sempre. Fizeram morada nos meus dias mais lentos, sem nenhuma pressa de partir para o esquecimento de tantos invernos bonitos e maravilhosos que vivi e que agora, folheados de detalhes pelo tempo, ainda me fazem recordar.

Foram muitos os invernos assim, generosos, que passei ao lado do meu pai. Hoje, entreabertos pelas páginas do tempo, eles continuam vivos na memória. E basta o cheiro da terra molhada, o estrondo distante dos trovões ou o vermelho de uma melancia recém-aberta para que eu volte a ser aquele menino de nove anos caminhando, numa manhã de inverno, pelos roçados do sertão.

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sábado, 19 de setembro de 2026

SE CAJAZEIRAS SOUBESSE E RECONHECESSE

por Padre José de Andrade Alves


Como seria a imagem do Padre Inácio Souza Rolim por volta de 1890, criada por IA.

Se Cajazeiras soubesse e reconhecesse que hoje é um dos dias mais marcantes de sua história, por certo estaria em festa sem igual. É que hoje se comemora o dia do seu santo; um daqueles que o foi por ter vivido uma vida longa, toda moldada nas belezas do Evangelho. Mas o Padre Rolim não viveu santidade unicamente por isso. Ele era de uma humildade e simplicidade incomensuráveis. Foi um penitente de nível supra, extremamente comedido à mesa. Como humano que era, tinha manias: a de não comer doces, para não sentir prazer, e a de não comer carnes, para não se sentir forte.

Seu cardápio diário era composto de folhas cozidas, batatas e frutas, em pequenas quantidades, e leite, somente uma meia xícara no café. Viajava a cavalo ou em mulas e, durante o percurso, comia bolachas secas; aliás, não eram bem bolachas, como são as de hoje, mas saquinhos e bolinhos que fazia à clara de ovo, com pouco sal e sem açúcar, conduzidos em bisaco de couro, envoltos em paninhos, em formato de trouxas.

Tinha seu lugar próprio de dormir, não por questão de conforto, mas, exatamente pelo contrário. Tinha o hábito de dormir ora no chão duro, que fazia o piso dos cubículos que ocupava, ora em cima de malas e bancos. Era admirável o castigo que impunha à sua matéria. Quando estendia o corpo sobre o chão duro do seu pequeno quarto, usava como travesseiro dois tijolos, ambos cobertos por um paninho, não como acolchoado, mas como forma de não deixar o couro cabeludo grudar-se naquele desconfortável e dolorido travesseiro improvisado.

Era sempre aberto ao diálogo e gostava de ir ao encontro de grupos, mas não admitia ficar na companhia de uma única pessoa. Apesar de afável a todos e todas, não admitia que mulheres tivessem a ousadia de adentrar a sós em qualquer ambiente em que estivesse. Já perto de morrer, certo dia teve um mal-estar e uma das velhas beatas que lhe dava assistência, achando que tinha de lhe prestar socorro, quase o tomou nos braços como forma de tentar reanimá-lo. O estratagema funcionou, mas, quando o Padre abriu os olhos e viu a cena, repreendeu duramente aquela senhora.

Renúncias? Neste quesito, era demais. Sendo um cultor das ciências de seu tempo, tudo tinha para brilhar e enriquecer. Viveu pobre, morreu pobre e assim o fez, ajudando sempre a quem o procurava. Achava que o maior serviço que se podia prestar era educar. Educava em sala de aula, mas também educava no campo. Tomava seu bisaco, punha a enxada nos ombros e metia-se mato adentro com os escravos para ensinar-lhes a plantar sementes de trigo e outras que não eram comuns às terras sertanejas naquele tempo. Não gostava de queimadas; era de cortar o mato fino das terras baixas e retirá-lo para fora, pois dizia que o fogo agredia a face da terra. Tinha um amor extremado às árvores, tão profundo amor que exigia de quem arrancasse uma árvore plantar duas outras. Vivia ensinando a fazer enxertos de árvores frutíferas.

Era de uma caridade sem igual. Não se contam as vezes que abrigou mendigos em Cajazeiras, alimentando-os em seus colégios. Quando a situação de miséria era mais estável, construía uma casa e abrigava o sem-teto, sem-terra e sem-pão. Fazia isso por amor. Ocorre que tinha nojo de fazer para mostrar que fez. Fazia tudo pelo bem dos outros, mas achava que ninguém deveria gastar tempo em seu benefício. Foi o santo do silêncio. Viveu sua comunhão com Deus sem o menor alarde. Acordava às 4 horas da manhã, fazia suas orações, rezava sua missa matinal e, em seguida, após seu pobre café, tinha um dos três destinos: a sala de aula, o roçado ou as viagens missionárias.

Talvez seja justamente por tudo isso que Cajazeiras tenha motivos para reconhecer neste dia uma das páginas mais marcantes de sua própria história: o homem que educava, que plantava, que cuidava das árvores, que acolhia os pobres, que renunciava às riquezas e que, acima de tudo, viveu sua fé sem alarde. Um homem que fez da própria vida uma lição. E, se Cajazeiras soubesse e reconhecesse verdadeiramente a dimensão dessa história, por certo estaria em festa sem igual.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

IMAGENS QUE FICARAM

by cleudimarferreira

Casa (hoje) de Seu Zuza Emídio, onde foi exibido o filme. Foto: Marcos Aurélio cz

Imagens são cativantes e sempre vão provocar certo fascínio na gente. Essa capacidade de prender a atenção transforma o registro visual em uma ferramenta poderosa de narrativa. Afinal, uma cena bem capturada não apenas ilustra a realidade, mas também molda a forma como compreendemos o mundo. Seguindo esse pensamento, vejo as imagens do meu mundo e falo, sobretudo, daquelas do meu querer – do lugar onde vivi parte da minha infância.

Elas sempre me atraíram e chamaram minha atenção. Olhava com olhar encantado toda aquela beleza de paisagem no plano reto, seguindo uma linha imaginária que parecia separar o céu da terra – numa visão panorâmica do que se exibia à minha frente. Imagino aqueles vales rodeados de serrotes, com sua vegetação exuberante, ainda sob o limo do inverno, composta de cores que extrapolavam o minimalismo natural, sugerindo, ao mesmo tempo, uma sensação de calma, mansidão e amplitude. 

Aquilo tudo era comum para mim, porém complexo no entendimento de um garoto campesino, até que tive contato com as primeiras imagens gravadas no papel por uma câmera fotográfica – uma espécie de Flexarel – usada por Adonias Alexandre, pioneiro em fotografar e registrar pessoas próximas a mim e o ambiente natural, espaço de convivência onde vivi os primeiros anos da minha adolescência. De cara, fiquei atraído pela novidade e, anos depois, já mais acostumado com aquela atividade, passei a vê-la como uma possibilidade de captar e registrar imagens reais e transformá-las em imagens ficcionais. 

Mas eu, na minha condição de desinformado, distante do universo moderno e daquela nova tecnologia de captar imagens, não fazia conta daquele momento nem me importava tanto com aquilo que Adonias mostrava – e que passou a encantar muita gente. De concreto mesmo, o que eu queria era brincar e contemplar as belezas geográficas que via. Imagens que me cativavam, atraíam e só; nada mais. Era apenas uma criança. E em se tratando de imagem, seja ela real ou imaginária, o que fascinava meus olhos e me fazia compreender sua importância, era aquilo que via ao natural. 

Para os visionários, uma imagem não passa de uma representação visual, física ou mental de algo que desperta interesse. Seu conceito é peculiar, de valor particular, e quem lhe dá uma definição ou característica é você. Ela imita ou reflete a aparência do que nos cerca no cotidiano. E, quando vista em movimento, em preto e branco – como nas primeiras imagens do cinema – diante dos olhos de um garoto que só conhecia o ambiente multicor do mato e dos bichos, a possibilidade de uma provocação mental era grande. Foi o que aconteceu comigo.

Certa vez, vi e ouvi um amigo do meu pai chegar lá em casa e convidar todos nós para ir ver um filme na sua residência. Não dei a mínima, não sabia o que era, simplesmente ignorei. Esse amigo era também compadre do meu pai e só promovia forró, nada mais. Dias depois, todos lá de casa e das residências vizinhas se prepararam para ver a novidade que o realizador de festas anunciou na localidade onde morávamos. Lembro muito bem: era final da primeira metade dos anos 1960. E lá fomos nós ver essa novidade, o tal filme anunciado por Zuza Emídio.

Depois de uma boa caminhada à noite pela vereda que levava todos ao local da exibição da película, finalmente chegamos. Na residência de Zuza já havia muita gente admirada, de olhos fixos e vidrados no frontão da casa, onde as imagens passavam sobre a parede caiada, de textura grotesca que até então só conhecia o som da sanfona e o calor do sol de uma parte do dia. Quando chegamos, procuramos ficar acomodados em algumas cadeiras e bancos. De cara, vi imagens que não se pareciam em nada com aquelas que meus olhos estavam habituados a ver.

Vi naquela parede fria uma cena em plano aberto, em preto e branco, de um lugarejo encravado entre serras, atingido por uma grande chuva que, em poucos minutos, enchia uma imensa barragem. A chuva forte e descontrolada inundava o povoado circundante ao manancial. À medida que aumentava, a chuva tornava turva a visão do lugar, tanto pelo embaraço do vendaval quanto pela imagem ruim, de qualidade acinzentada, talvez gerada por um equipamento precário.

Lembro que achei aquilo tão sem graça que desprezei a exibição e fui brincar com outros garotos que estavam lá, pelos arredores do terreiro de Zuza Emídio. Depois de alguns minutos, distraído com os meninos, voltei a olhar o filme, que seguia rolando e para o qual todos olhavam admirados. A cena do dilúvio ainda continuava em movimento, numa sequência longa e interminável, quando, de repente, a barragem começou a se romper, com o aguaceiro transbordando por cima da barreira. Em seguida, veio o estouro e a inundação de tudo o que havia no lugarejo – casas, sítios e igrejas do povoado.

Por certo, chegamos ao local da exibição com o filme em andamento. Já perto do final, visto que, logo após a cena do dilúvio, o filme finalmente chegou ao término. Ficava registrado, naquela noite, meu primeiro contato com o cinema, mesmo sem compreender bem o que era aquilo que vi. Eu era menino demais para prestar atenção naquela coisa que era projetada entre as duas janelas da frente da casa de Zuza. O que sei é que, naquela noite, diante de uma tela improvisada, a escuridão do sertão se encheu de luz e de imagens. Se imaginarmos bem, a exibição no reduto de Zuza Emídio, nos anos 60, pode ser ligada ao tempo dos exibidores itinerantes que havia em Cajazeiras e na região do sertão paraibano. 

Foi uma daquelas exibições que, de tempos em tempos, chegavam aos povoados do interior nordestino, levando para dentro da noite a luz de um projetor de 16mm e as imagens de um filme. Não me lembro de qual filme era, nem, com segurança, de quem levou o projetor e fez aquela exibição. Provavelmente, pelas características das imagens que vi, o filme exibido na casa de Zuza Emídio pode ter sido They Planted a Stone, documentário britânico de 1953, ou Project for Plenty, documentário indiano também realizado em 1953.  

Quanto à exibição, poderia ter sido feita por Eutrópio Cartaxo, um dos conhecidos exibidores ambulantes que percorriam a região, mas minha memória, depois de tantos anos, não consegue afirmar. Talvez tenha ficado por conta de outro desconhecido andarilho da imagem. Sei também que Zé Sozinho não teria sido, pois a exibição aconteceu nos anos 60, e o mambembe Zé Sozinho teria chegado a Cajazeiras no início dos anos 70. O que ficou guardado não foi o nome do homem que estava atrás do projetor, mas a descoberta do cinema.

Naquela época, a energia elétrica era algo desconhecido por aquelas bandas. Ela existia apenas na cidade de Cajazeiras, possibilitando o funcionamento dos projetores dos Cine Éden e Cine Pax, os únicos cinemas em atividade na cidade. Como o filme foi projetado e de onde veio a energia para fazê-lo funcionar, também não sei dizer. Talvez de um pequeno gerador, talvez de alguma engenhoca ligada a uma bateria de caminhão. Lembro apenas que o filme era em preto e branco, um média-metragem, e que a imagem, nas condições improvisadas daquela exibição, era bastante ruim.


Na casa de Zuza Emídio, a diversão já era conhecida: ele promovia seus bailes de forró, tudo iluminado pela luz amarela dos lampiões e candeeiros. Até que, um dia, apareceu uma novidade. Naquele mesmo lugar, onde até então a noite se fazia de música, dança e luz de lamparina, houve uma exibição de cinema.

Foi entre essas duas janelas o local exato onde o filme foi exibido.

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domingo, 30 de agosto de 2026

A MORDAÇA NO CRISTO REI

By cleudimarferreira 


A estátua do Cristo, situada no serrote – chamado pela população de Cajazeiras de Morro do Cristo Rei –, outrora venerada pelo povo, foi ao longo da história desrespeitada pelo poder público municipal, o responsável direto por sua manutenção e cuidado. Essa fotografia acima que ilustra essa postagem, mostra até onde esse desrespeito chegou: além das potentes antenas das emissoras de rádio e das empresas de telefonia móvel – de celulares, agora ao extremo, a prefeitura permitiu que colocassem uma espécie de mordaça de ferro na esfinge do nosso Cristo.

A construção de uma identidade visual marcante é essencial para o fortalecimento do turismo municipal, pois ter um símbolo de referência atrai visitantes e movimenta a economia local. Um exemplo bem-sucedido dessa estratégia é a cidade vizinha de Sousa, que adotou o dinossauro como o grande ícone da sua identidade turística, mantendo seu patrimônio histórico e natural sempre bem cuidado, preservado e promovido com carinho. 

Seguindo esse mesmo potencial, Cajazeiras deveria adotar a estátua do Cristo Rei como o seu principal marco de exploração turística; infelizmente, a realidade local tem sido o oposto, marcada pelo desprezo e pelo abandono desse importante monumento.

A Prefeitura de Cajazeiras sempre viveu de improvisos quando o assunto em pauta são os grandes projetos no setor cultural e turístico. Não consegue – e nunca conseguiu – apresentar à população algo consistente para essas demandas. Na verdade, os atrativos turísticos e espaços da cidade que deveriam encantar os visitantes – como o próprio Cristo Rei, o Açude Grande e a Praça Nossa Senhora de Fátima – apresentam sinais claros de abandono. A falta de zelo é real e, antes de discordar de mim, faça uma visita in loco a esses locais e construa se poder, seus argumentos contrários ao que estou afirmando.

As poucas e boas ideias que ao longo do tempo foram colocadas em prática não vieram da prefeitura, mas sim do esforço da classe artística, que, mesmo enfrentando sérias dificuldades logísticas e financeiras, conseguiu realizar a duras penas, ações mais consolidadas.

Sou apaixonado pela minha cidade, mas me vejo obrigado a escrever alertas assim para tentar conscientizar o poder público de que o investimento no setor de turismo e cultura deve estar na ordem do dia, com a mesma prioridade dedicada à saúde, à educação e à segurança.

O turismo é uma atividade contínua – nunca se sabe a hora nem o dia em que um visitante estará em nossa cidade. É ele quem leva a impressão boa ou ruim do lugar. Se cuidarmos direito, o turista fará uma boa propaganda de Cajazeiras por onde for e, sendo assim, teremos mais visitantes em nossa cidade, ajudando a aquecer a nossa economia.

Estou certo ou errado? É assim ou não?

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