Depois
de um segundo casamento religioso que não deu certo, meu avô Tiantonio, seguiu
na sua lida, cuidando o seu pedaço de chão como se fosse a única esperança que
ainda trazia um pouco de alento e distração aos seus longos dias de solidão. Agora
morando só, em contatos constantes com seus vizinhos, sempre rodeado de amigos
- ele também sagradamente, visitava todas noites a casa de sua única filha - Joana
Ferreira, que ficava próximo da sua. Lá ele jantava e matava as horas,
conversava sobre os afazeres de mais um dia de trabalho.
Porém
a fatalidade, às vezes, aparece sem dar sinais e, o seu preço, como moeda de
chegada costuma ser caro e doloroso. Certo dia, ele, com a disposição de sempre
- até desproporcional aos seus anos vividos; precisando tocar as atividades
domésticos, fruto da lacuna deixada por falta de uma companheira, foi laxar uns
paus no terreiro da cozinha para abastecer um fogão de lenha que tinha dentro
de casa. Não sabia ele que a poucos minutos, um infortúnio estava para
acontecer, que marcaria para sempre os poucos anos que restava de vida.
Desceu
os três batentes da porta que abria para o terreiro, foi até um cepo de jucá
que servia como base de apoio para cortar as toras de lenhas. Era um trabalho
repetitivo, de anos, que ele praticava e não havia errado nunca. Pegou o
machado, companheiro de tantos cortes, desceu certeiro na primeira tora seco,
mas a madeira inanimada, morta, numa secura de rachar, reagiu: uma 'filepa' do
pau saltou como uma flecha, atingindo em cheio o seu olho esquerdo. Não furou
mais bateu forte a ponto de causar um pequeno inchaço no seu olho.
O
que parecia apenas um cisco, um ardor incômodo, logo se transformou em uma
inflamação preocupante com a visão ficando turva, embaraçada. Reclamando dos
sintomas a Joana Ferreira - o socorro mais próximo nas horas de precisão, ela
ouvindo os lamentos do pai, aconselhou que meu avô quando fosse à Cajazeiras,
procurasse um doutor para tratar do olho.
No
dia seguinte, se amancebou no primeiro carro que passou na estrada para Cajazeiras.
Quando chegou no seu destino, foi direto para o consultório de Doutor Sabino -
único médico oculista que havia na cidade, mas por um capricho da sorte o
médico não estava para atendê-lo. Sem ter a quem socorrer para mostrar o olho, e
ele foi aconselhado por pessoas conhecidas a procurar o farmacêutico Francimar -
estabelecido na Avenida Engenheiro Carlos Pires de Sá, dono da única farmácia
que havia na zona sul da cidade.
Como
a botica de Francimar ficava no mesmo trecho que ele sempre fazia para chagar a
casa de um dos seus filhos que morava em Cajazeiras, saiu do centro da cidade e
se dirigiu a essa farmácia. Quando chegou nesse estabelecimento deu bom dia e
buscando alivio para irritação que o hematoma causava no seu olho, contou ao
farmacêutico o que havia acontecido com a sua visão esquerda. O farmacêutico,
sem o devido exame, vendeu-lhe um colírio que prometia a cura em pouco tempo. E
disse para o meu avô: - Seu Antônio, esse é tire e queda. Pingou no olho, em
dois dias vai desinflamar.
Mas,
não foi bem assim. Chegando em casa, foi fazer uso do remédio e ao pingar a
primeira gota, o mundo do meu avô desabou em chamas. Sentiu um ardor
insuportável, seguido de uma dor lancinante e uma visão que se embaraçava como
a névoa das manhãs nos baixios do Sítio Riacho do Balsamo.
No
outro dia, voltou a Cajazeiras, e ao chegar, encontrou Doutor Sabino no seu
local de atendimento. Desesperado, contou sua história ao médico e ouviu uma sentença
dura como o chão do seu lugar, que ele costumava lidar: o remédio errado havia
queimado o globo ocular do olho do meu avô e a luz daquele olho estava se apagando
para sempre. Não havia mais o que fazer. O que começou com uma 'filepa' de pau
no olho esquerdo tornou-se um rastro de sombra que não quis parar.
Como
se um olho quisesse carregar a dor do outro, a doença passou pela glabela e
atingiu o olho direito. Em pouco tempo, o mundo do meu avô - as veredas, o
brilho do sol, as cores do seu lugar e o vulto da vegetação do sertão - foi
sumindo a cada dia até virar um breu fechado. O homem disposto, que não era de muita
conversa, agora tateava o ar em busca das paredes da casa. Ficou totalmente
cego. Naquela escuridão forçada, o som do vento, dos pássaros, dos animais
domésticos, selvagens que habitavam as cercanias do Sítio Fuá passaram a ser os
seus guias, os olhos que ele já não possuía mais.
As trevas da escuridão total trouxeram consigo um peso que o corpo de Tiantônio não estava acostumado a carregar: a impotência. Ele, que sempre fora o esteio da casa, o homem de pouca conversa e muita ação, viu-se subitamente entregue às mãos da filha, Joaninha. Era ela quem guiava seus passos, quem cuidava das suas feridas e quem tentava dar luz aos dias que se tornaram uma noite eterna.
Sem poder viver uma vida social como antes vivia, não conseguindo conciliar os trabalhos braçal que fazia ou cortar a lenha no mato, a tristeza foi se instalando. O corpo, privado dos afazeres da roça que era o seu combustível, começou a definhar. Doenças do corpo e da alma se achegaram, se alojaram, aproveitando-se daquela imobilidade forçada. Seu Antônio Ferreira - meu avô Tiantonio, acabou falecendo, deixando para trás o Sítio Fuá, os amigos, o arrependimento mudo pelas os desatinos cometidas em vida e a saudade nos olhos de quem ficou.
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