sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Quem tem história, escreve ou conta; quem não tem, lê ou escuta.

Uma aventura 
para assistir ao show de Zé Ramalho 
em Brejo do Cruz.

Direitos sobre as imagens: Foto da cidade: Brejodivulga. Foto da capa 
do disco: Mario Luiz Thompson.


O cantor Zé Ramalho faz show no dia 26 de novembro, em João Pessoa, no Teatro Pedra do Reino. Vou logo avisando aos que não se sentem bem com a minha presença que estarei lá. Mas o que quero falar sobre o cantor paraibano não é especificamente sobre sua apresentação no “Pedra do Reino”.

Então, vamos direto ao que quero dizer. Em outubro de 1981, anos após o lançamento do LP Zé Ramalho, em 1978, álbum que incluiu a música “Avôhai”, o cantor fez aquele que seria o seu primeiro show na Paraíba, em praça pública, na sua cidade natal, Brejo do Cruz.

Eu era um garoto e tinha lá os meus 22 ou 23 anos. Engajado nos costumes políticos da juventude do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, eu sonhava com o medo e vivia com a ilusão da luta voraz do dragão contra a maldade de um regime político imposto goela abaixo na vida de todos nós brasileiros.

Mas “Avôhai” apareceu como um antídoto para apaziguar os ânimos e nos envolver numa escala alienante, convincente de que não bastava só viver da rebeldia política, mas também do experimentalismo da luta e do prazer do corpo pelo corpo.

Desse engajamento ideológico vieram o experimentalismo das drogas, o aprofundamento alcoólico, a liberação do corpo e das primeiras relações sexuais, descoladas das regras conservadoras, mais soltas e libertárias, em busca das primeiras experiências homossexuais.

O rock brasileiro dos anos 1980 já contava com uma lança dilacerante, ferindo de alegria nossos corações ilusórios e os sonhos de um futuro melhor, com as liberdades que todos sonhavam ter. Nesse caminho de festa, sexo e rock and roll, o LP de Zé caiu como um zepelim recheado de sucessos, estourando as paradas pelo Nordeste e, depois, no país inteiro.

Mas também pudera! Era um álbum repleto de músicas de sucesso, como: “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Chão de Giz”, “A Noite Preta”, “A Dança das Borboletas”, “Bicho de Sete Cabeças” (instrumental), “Adeus Segunda-Feira Cinzenta”, “Meninas de Albarã” e “Voa, Voa”. Nossa, era uma festa de ritmos, acordes, muito som e energia da música nordestina, transbordando o dial das emissoras de rádio e os volumes das vitrolas nas residências paraibanas.

Nesse embalo, meu amigo Artista (não vou citar o nome para preservar seu direito individual) e eu resolvemos sair de Cajazeiras para assistir ao show de Zé na cidade de Brejo do Cruz. Mas como? Não tínhamos dinheiro, transporte e nem promessas de carona até Brejo do Cruz. Como chegaríamos lá, nem eu nem ele sabíamos.

Doidera? não! vontade de cair na estrada, viver uma aventura e sair cortando o vento para ver a festa do Zé. Ficamos sabendo que um amigo do rádio ia no seu Kadett marrom zero-quilômetro para o show. Fomos pedir uma carona, mas aquele que se dizia o amigo do peito, só nos levou até a cidade de Sousa. Chegando à Cidade Sorriso, fomos convidados a sair do veículo com a seguinte frase: “Desce, aqui não é lugar para macho, é só mulher”. Perdemos a carona para duas senhoritas de Sousa que entraram no carro do amigo radialista até Brejo do Cruz.

Saímos do carro e, depois de horas, pegamos uma carona e ficamos na entrada para Catolé do Rocha. Sem dinheiro, sem água, seguimos a pé pela estrada de terra até essa cidade. Cansados, ainda conseguimos atravessar o perímetro urbano de Catolé do Rocha até a saída para Brejo do Cruz. Abatidos pelo cansaço, fomos até uma venda ali e pedimos um copo com água. Abastecidos, sentamos numa calçada acalentando a barriga que não parava de roncar, debaixo de uma figueira, em uma das últimas casas daquela saída, e ficamos sonhando com uma carona.

Muito abatidos, com muita fome — sem almoço e sem dinheiro —, tínhamos apenas a esperança de encontrar outros amigos de Cajazeiras que já estavam lá e sermos convidados por eles para um lanche. O relógio já anunciava às 16 horas.

Sem esperança de conseguir uma carona naquele fim de mundo, passamos até às 17h30 esperando uma condução para Brejo do Cruz, que não vinha nunca. Já decididos a seguir o trecho a pé para não perder o show de Zé Ramalho, vimos quando, de repente, apontou, bem longe, uma caminhonete Ford F-1000 na estrada poeirenta, lançando poeira fina no ar. Era um político bastante conhecido em toda aquela região.

Corremos da calçada, desesperados, até a margem da estrada. Acenamos com as mãos, pedindo que parasse. A caminhonete passou por nós, mas parou logo adiante. Corremos e, quando a alcançamos, antes mesmo de nos apresentarmos e falarmos o que queríamos, o motorista foi logo perguntando para onde íamos. Dissemos a ele que estávamos indo para o show de Zé Ramalho.

Ele se apresentou e falou que era José Sérgio Maia. Perguntou se nós o conhecíamos. Falamos que sabíamos quem era, mas aquela era a primeira vez que o víamos. Assim, mandou um de nós entrar na boleia, pois estava acompanhado de um segurança e só havia uma vaga. Eu entrei na boleia e meu amigo Artista subiu na carroceria. E assim seguimos até a entrada do Sítio desse senhor, que ficava na estrada da cidade a 200 metros de Brejo do Cruz, trecho que fizemos a pé.

Quando chegamos, por volta das seis horas, a cidade estava lotada, não cabia mais ninguém. Havia muitas barracas de camping armadas na entrada e na praça.

Sabendo o local onde estaria o grupo de conhecidos nossos de Cajazeiras naquela cidade, fomos até lá. Era uma casa com a entrada cheia de árvores, muitas mesas, mas comida — que era o que necessitávamos naquele momento — não havia. Havia muitas bebidas: cachaça, cervejas, com tira-gostos de caju, limão e laranja.

Sem comer nada, a noite chegou, e o cheiro de cannabis inundava o ar de Brejo do Cruz com seu aroma. Encontramos um amigo de Cajazeiras (cujo nome não posso afirmar para preservar sua identidade) que, sabendo da nossa situação, nos convidou para fazer um lanche em um dos pontos de venda do show. Sua atitude humanitária amenizou a nossa fome naquelas poucas horas que antecederam a subida de Zé Ramalho ao palco. Depois disso, o show começou e rolou até depois da meia-noite.

Quando a multidão começou a se dispersar e a praça foi ficando vazia, a temperatura caiu e a umidade do ar melhorou. Já não se via muita gente andando pela cidade. Muita gente dormia em seus carros, nas barracas e nos bancos da praça. Eu e meu amigo deitamos sobre uma lona que estava debaixo de um caminhão responsável pelo transporte dos equipamentos de som do show de João Pessoa até Brejo do Cruz.

Dormimos o resto da noite e, quando deu seis horas, despertamos e, em seguida, procuramos nossos amigos de Cajazeiras, à procura de uma carona. Sem sucesso, pois as alegações eram de que todos já tinham companhia e não podiam conduzir mais ninguém. Porém, numa dessas horas em que não aparece uma solução, uma pessoa, ouvindo nossa situação, nos abordou e aconselhou que a solução era pegar carona com o caminhão do som até a BR-230.

Procuramos o motorista que, sensível à nossa situação, nos concedeu a carona, mas com uma condição: que fôssemos em cima da carga, entre as caixas de som e outros equipamentos eletrônicos usado do show. Topamos, não havia outro jeito. O caminhão nos deixou na entrada de Catolé do Rocha e seguiu viagem em direção à capital. Imediatamente, às margens da BR-230, passamos a acenar, solicitando carona a todos os caminhões que passavam pela rodovia.

Porém, à nossa direita, havia um pequeno açude e, lá, dois hippies estavam tomando banho. Após deixarem aquele açude, eles se deslocaram até próximo de nós e passaram a fazer fileira na tentativa de parar os caminhões e conseguir uma difícil carona naquele lugar. Eram eles mais à frente e nós bem na divisa para a terra de Chico César, na luta para conseguir uma carona em direção a Sousa ou Cajazeiras.

Quando já eram umas 11 horas, um caminhão que passava por aquele trecho parou. Corremos todos, mas o motorista falou que só podia levar duas pessoas sobre a carga que conduzia até Cajazeiras. Na disputa com os dois desconhecidos hippies, a gente levou a pior. Eles seguiram viagem e nós ficamos apelando para a sorte.

Pouco tempo depois, passou um caminhão com meia carga. Acenamos com a mão, pedindo a sonhada carona. O caminhão parou, porém o motorista afirmou que a carona seria até a cidade de Sousa, pois era lá que ia ficar. Aceitamos. Seguimos e, quando chegamos a um posto de gasolina, o caminhão parou. O motorista se dirigiu a nós e falou que o fim da linha era ali naquele posto.

Descemos e fomos até as bombas de abastecimento. Havia muitos carros no local. Passamos a perguntar a todos se nos davam uma carona até Cajazeiras, mas todos a quem perguntávamos diziam que não iam para Cajazeiras. De tanto perguntar e esperar que aparecesse alguém para nos conduzir até a nossa cidade de origem, eis que aparece uma caminhonete em uma daquelas bombas e fomos perguntar se ia para Cajazeiras.

Dessa vez tivemos sorte. O motorista do veículo afirmou que ia, porém que iria ficar na Rua Desembargador Boto. Meu amigo Artista, quase cortando a fala do condutor da caminhonete, disse:

— Sem problemas, a gente aceita. Estamos cansados, doidos para chegar em casa.

Quando chegamos a Cajazeiras, passava das 13 horas, indo para as 14 horas. Abatidos, descemos do carro e seguimos em direção ao Beco da Carniça, no bairro da Esperança, onde morávamos.

Eu, pelo menos, cheguei em casa todo queimado do sol, com poeira por todo o corpo, os olhos enfiados para dentro e os lábios secos, pedindo um copo de água.

Quanto ao amigo Artista, eu não sei dizer em que estado chegou. Só ele poderá declarar sua condição física na chegada.

cleudimar.ferreira

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Um triângulo amoroso em trapézio de escada para uma atriz e dois atores

    CRÍTICA   .

porEdílson Dias

Nesta imagem, pessoas conhecidas do teatro paraibano. Fernando Palitot, Gutemberg 
Cardoso, Tercisio Pereira, Soia Lira, Jocelio Amaro etc (...)

Nos Sertões adusto do interior paraibano, subscrevi os créditos da Produção Executiva da encenação de UMA MULHER PARA DOIS MARIDOS, em foco.

A serviço do Ministério do Planejamento, do Plano Nacional por Amostragens a Domicilio PNDA / IBGE. A época do Censo Geral 1990. Só realizado no ano 1991 subsequente, quando eu exercia retida função de Agente coletor supervisor no município Brejo do Cruz.

Auto bancava, sempre naqueles aludidos finais de semana, do meu próprio bolso, as minhas hospedagens cajazeirense; os deslocamentos desde o meu Pé de Serra às Cajazeiras do Padre Rolim e vice-versa, e as outras despesas diversas decorrentes às cascas de bananas que me sobraram, já passadas por decurso de prazo.

ConsultarAtlas

Isto quando eu tive a grata iniciativa de provocar Fernando Palitot, um nativo ator e o Dramaturgo de UMA MULHER [a atriz Soia Lira] PARA DOIS MARIDOS [os atores Fernando e Gutemberg].

Ao tempo em que o montês, Horebe Palitot, encontrava-se egresso do teatrão carioca & alhures relocado no ermo Monte Horebe. Em quais palcos andará agora aplaudido o nosso confrade ator? Bom amigo de todos nós outros, os supra citados teatristas paraibanos. Gutemberg Cardoso & Nando Teatro cordel [ambos veteranos intérpretes, dinossauros].

O nosso "Vovô Smurf, Gugu Cardoso", embora projetado um pro ativo âncora às lides da radiofonia Boca Quente / Rádio difusora de Cajazeiras, andava mais que estático, parado no ar, desde as suas últimas aparições nas esquetes obnubiladas pelo grupo Boiada.

Mais encalhada esteve, naqueles tempos, a sombra de inerte ribalta do Teatro Íracles Pires, recém inaugurado. Hoje remissivo à pátina de ímpar montagem teatral por ter contemplado, sobremaneira, totêmica atriz Soia Lira, quase há um lustre após ela haver participado de seguidos circuitos durante as edições do Mambembão [com as peças Beijo de Estrada, e Até Amanhã, dirigidas por Eliézer].

Com demandados esforços viemos a palco, público, inusitadas bilheterias e esparsas resenhas cênicas. A contento em termos abatido o pó da poeira, pé na estrada, quando incontinente, Luís Carlos escalou para com o mais soberano resgate de Soia Lira vir configurar, a tartamuda personagem, em acréscimo de "A nega Ceição" in o conto seminal, VAL DE SARAPALHA, do Mestre Guimarães Rosa.

Tudo isto nos consta, já passado em ata, em fina sintonia com o prestimoso Elenco supra mencionado, o nome do nosso diretor, Tarcísio Pereira, nos caiu como uma luva de pelica, ao primeiro convite que Vovô Smuf o formulou.

Para mais arrefecer, de bom grado, a comédia que juntos assistimos, na vida real da Pequena notável, atriz Sônia Lira, lhe ocorreu, nesse curto período, dela migrar de a sua primeira união consensual. Antes contraída com o nosso dileto amigo, docente da UFGC, ecologista José Maria Gurgel. Indo ao seu novo encontro acasalador, na Ilha dos Tamanduás, em novas núpcias contraídas com o confrade ator Formiga.

Caiu a mosca no mel.

Ah ah ah...

(reprodução) Conteúdo publicado em 15.04.2021.

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domingo, 25 de outubro de 2026

O Palhaço, o Filho da Lua e a Floresta: Uma experiência pioneira do teatro infantil em Cajazeiras.

Cleudimar Ferreira 


Recorte: Jornal A União, 1983. Acervo: Cleudimar Ferreira


Na história do teatro em Cajazeiras, o antigo Grupo Cênico Boiada levou ao palco, em 1983, uma história de fantasia, resistência e defesa da natureza, numa experiência que marcou a trajetória do teatro cajazeirense.

Pois bem, nesse ano o teatro de Cajazeiras viveu uma experiência que merece ser recuperada e valorizada pela história cultural da cidade. O Grupo Cênico Boiada, vinculado às atividades do Núcleo de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Campus V, por meio da Coordenação de Artes Cênicas, realizou aquela que, segundo a memória de seus participantes, foi a primeira experiência de encenação concebida diretamente para o público infantil na cidade.

O espetáculo, intitulado O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta, tinha texto e direção de Marcus Pequeno. A estreia aconteceu no auditório do Colégio Diocesano de Cajazeiras, reunindo jovens atores amadores em torno de uma proposta que buscava aproximar o teatro das crianças, utilizando a fantasia, o humor e a aventura para abordar questões sociais e ambientais.

A realização não se limitou à apresentação inaugural. Depois da estreia, o grupo levou o espetáculo a outros espaços de Cajazeiras, entre eles o Centro Social Urbano (CSU), ampliando o contato com o público infantil. A montagem também chegou a Pombal e a João Pessoa, através da Gincana Cultural Descubra a Paraíba, realizada pelo MOBRAL, levando a experiência teatral produzida no sertão para outros públicos paraibanos.

Uma floresta ameaçada e a união dos oprimidos

A trama apresentava um casal de curumins — indiozinhos interpretados por Aguinaldo Cardozo e Amazonina Cardoso — que vivia em uma floresta habitada por diferentes animais. A tranquilidade daquele ambiente, porém, estava ameaçada pela chegada de um caçador acompanhado de seu cão medroso e sonolento, personagem que, conforme a narrativa, se caracterizava pela covardia.

O caçador pretendia perseguir e eliminar os animais, expulsá-los da mata ou aprisioná-los. A destruição da vida silvestre abriria caminho para a derrubada da floresta e a implantação de um empreendimento agropecuário ligado a interesses econômicos externos.

A história infantil adquiria, assim, uma dimensão que ultrapassava a aventura. Na leitura política presente na concepção do espetáculo, a floresta representava um território ameaçado pela exploração econômica, enquanto seus habitantes simbolizavam aqueles que precisavam unir forças para defender a própria existência.

O confronto entre os personagens podia ser compreendido como uma representação da luta entre opressores e oprimidos. De um lado, o caçador, movido pela intenção de dominar e destruir; do outro, os habitantes da mata, ameaçados de perder seu espaço e seu modo de vida.

É nesse ponto que a presença do palhaço ganha importância. Associado ao humor e à linguagem acessível às crianças, ele se juntava aos curumins e aos animais para enfrentar a ameaça. A resistência deixava de ser uma ação individual e se transformava numa luta coletiva.

No desfecho, a união dos personagens conseguia dominar o caçador e expulsá-lo da floresta. A ameaça era afastada, os animais recuperavam seu espaço e a vida voltava à normalidade. Para o público infantil, a história apresentava uma mensagem de solidariedade: diante de uma ameaça comum, a união pode se tornar uma força capaz de mudar o curso dos acontecimentos.

A criação do espetáculo e seus realizadores

A montagem também representou um exercício de criação coletiva, reunindo diferentes profissionais e artistas na construção de sua linguagem visual e cênica.

O cenário foi produzido por Marcos Pê, responsável por criar o ambiente em que se desenvolveria a ação dramática. Para tornar real essa fantasia Marcos teve que pintar um imenso painel de fundo que representação uma floresta densa e fechada, acrescido adereços que simulavam cipós e outros atrativos de uma mata fechada. O figurino foi concebido e confeccionado por Noemia, esposa de Marcus Pequeno, contribuindo para a caracterização dos personagens e para a composição do universo fantástico da peça.

Além de Aguinaldo Cardozo e Amazonina Cardoso, que interpretavam o casal de curumins, o espetáculo reunia outros integrantes do Grupo Cênico Boiada, entre eles Marcos Pê, Marcos Ramalho, Francisco Lira, Amazonina Cardoso, Aguinaldo Cardozo, Patrícia Albuquerque, Francisco Batista Amaro, Claudimar Ferreira, José Clementino, Josefa Harkley e Wildenir Albuquerque, conforme a relação publicada pelo jornal A União em 1983.

A participação do Núcleo de Extensão Cultural da UFPB, Campus V, situava a experiência no âmbito da aproximação entre a universidade e a comunidade. A extensão universitária possibilitava que conhecimentos, práticas artísticas e experiências de criação circulassem para além dos espaços acadêmicos, alcançando diferentes públicos.

Nesse sentido, levar uma montagem especificamente destinada às crianças aos palcos de Cajazeiras significava ampliar as possibilidades de atuação do teatro local. O público infantil passava a ser considerado não apenas como espectador eventual, mas como destinatário de uma criação artística concebida para suas formas de percepção, imaginação e compreensão do mundo.



O Brasil de 1983: entre a crise política e a busca por novos caminhos culturais

Para compreender melhor o significado daquela experiência, é necessário situá-la no Brasil de 1983. O país ainda vivia sob o regime militar instaurado em 1964. João Figueiredo ocupava a Presidência da República, e o processo de abertura política, iniciado nos anos anteriores, avançava em meio a disputas, limitações institucionais e crescente mobilização da sociedade.

A situação econômica era difícil. A inflação elevada, a recessão, o desemprego e o peso da dívida externa agravavam as condições de vida da população. Ao mesmo tempo, a reorganização dos movimentos sociais e sindicais e o fortalecimento das forças de oposição ampliavam as pressões por mudanças políticas.

Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira apresentou uma proposta de emenda constitucional que pretendia restabelecer as eleições diretas para presidente da República. A campanha das Diretas Já ganharia força nas ruas em 1984, tornando-se uma das maiores mobilizações populares daquele período. Portanto, quando o Grupo Boiada preparava seu espetáculo, o Brasil atravessava uma fase de transição, na qual as demandas por participação política e democratização começavam a ocupar um espaço cada vez mais expressivo.

No campo cultural, também se discutia a necessidade de ampliar e organizar a atuação do poder público. A cultura ainda estava vinculada ao Ministério da Educação e Cultura, e a criação de um ministério próprio somente ocorreria em março de 1985, durante o governo de José Sarney. Os debates que antecederam essa mudança refletiam o interesse crescente de artistas, intelectuais e gestores por políticas culturais mais específicas e por maior reconhecimento da diversidade das manifestações artísticas brasileiras.

Essas transformações não significavam que todas as experiências culturais estivessem diretamente vinculadas à oposição política ou que cada espetáculo constituísse uma manifestação partidária. O cenário, entretanto, ajuda a compreender por que temas como liberdade, desigualdade, exploração e resistência tinham especial relevância naquele período.

O espetáculo do Grupo Cênico Boiada permite uma leitura nesse sentido. Ao apresentar um caçador disposto a destruir a floresta em benefício de interesses econômicos, a narrativa colocava em cena o conflito entre a busca pelo lucro e o direito dos seres ameaçados de permanecer em seu ambiente. A luta dos curumins, do palhaço e dos animais contra o invasor podia ser entendida como uma metáfora da resistência coletiva diante de uma força que pretendia impor sua vontade aos demais.

Essa interpretação ganha ainda mais significado quando se considera a história das políticas de desenvolvimento implantadas durante a ditadura militar, especialmente na Amazônia, onde grandes projetos de infraestrutura, incentivos econômicos e expansão das fronteiras agropecuárias contribuíram para intensificar a ocupação territorial e o desmatamento. Embora a narrativa teatral não deva ser confundida com uma descrição literal de um projeto específico, seu conflito dialogava com preocupações reais sobre a exploração da natureza e os interesses econômicos que orientavam a ocupação de territórios.

O MOBRAL e a Gincana Cultural Descubra a Paraíba

Foi nesse contexto que o Grupo Boiada se preparou para participar da Gincana Cultural Descubra a Paraíba, promovida pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL).

Criado durante o regime militar, o MOBRAL tinha como objetivo central desenvolver ações de alfabetização de jovens e adultos, mas, ao longo de sua trajetória, também passou a promover atividades culturais, comunitárias, esportivas e de lazer. A gincana constituía uma dessas iniciativas, utilizando diferentes modalidades de participação para mobilizar grupos e divulgar manifestações culturais.

Uma matéria publicada em A União, produzida pela sucursal de Cajazeiras, registrou a participação do grupo na competição. Sob o título “Grupo Boiada concorre ao primeiro lugar da gincana”, a notícia informava que o conjunto estava na última fase da disputa, na modalidade de teatro, com o espetáculo O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta.

O jornal relatava que o Boiada havia obtido o primeiro lugar na terceira fase da gincana, realizada em Pombal, com a pontuação máxima. A matéria também informava que o grupo se preparava para a etapa final, prevista para uma segunda-feira, no auditório do Liceu Paraibano, em João Pessoa, a partir das oito horas da manhã, com entrada gratuita para todas as crianças.

A notícia é um documento importante porque registra a circulação de uma produção teatral originada em Cajazeiras e sua participação numa iniciativa de alcance estadual. Mais do que anunciar uma apresentação, o texto jornalístico permite recuperar nomes, espaços, datas aproximadas e etapas de uma trajetória que poderia permanecer restrita à memória dos artistas envolvidos.

O recorte também demonstra que o espetáculo não ficou limitado à estreia. Sua participação na gincana e as apresentações em outras cidades mostram que a montagem percorreu diferentes espaços e encontrou oportunidades para alcançar públicos além de sua comunidade de origem.

É importante, contudo, distinguir o resultado já documentado da etapa realizada em Pombal da classificação final da competição: a matéria comprova a vitória naquela fase, mas não permite afirmar, por si só, que o grupo conquistou o primeiro lugar geral da gincana.

Uma experiência que merece permanecer na memória

A importância de O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta não se resume ao seu argumento nem à participação na Gincana Cultural Descubra a Paraíba. Ela também está no significado de se produzir, em Cajazeiras, uma montagem concebida diretamente para crianças, reunindo dramaturgia, direção, cenário, figurino e interpretação em torno de uma proposta artística específica.

Ao levar o espetáculo a escolas, espaços comunitários e palcos de outras cidades, o Grupo Cênico Boiada contribuiu para ampliar o alcance do teatro produzido no sertão paraibano. A experiência demonstrava que a criação teatral não precisava se limitar aos grandes centros para tratar de questões sociais, mobilizar artistas e estabelecer diálogo com diferentes públicos.

A peça também oferece uma lembrança de como a linguagem infantil pode abordar assuntos complexos sem abandonar a imaginação. A ameaça à floresta, a exploração econômica e o confronto entre forças desiguais apareciam traduzidos em personagens reconhecíveis, numa narrativa em que a solidariedade se tornava condição para a vitória.

Quatro décadas depois, a recuperação dessa história permite olhar para além das lembranças individuais e reconhecer uma parte da trajetória cultural de Cajazeiras. O recorte de A União, somado aos depoimentos dos participantes, ajuda a recompor os acontecimentos e a devolver visibilidade a artistas que, em diferentes funções, contribuíram para a construção do teatro local.

Preservar essa memória é também reconhecer que a história cultural de uma cidade não se faz apenas com grandes edifícios, instituições ou acontecimentos consagrados. Ela se constrói nos ensaios, nas apresentações, nos figurinos, nos cenários, nas viagens e no trabalho de pessoas que acreditaram na possibilidade de fazer arte onde viviam.

Em 1983, o Grupo Cênico Boiada colocou em cena curumins, um palhaço, animais e um caçador. Sob a aparência de uma aventura infantil, apresentou um conflito sobre poder, exploração e resistência. E, ao fazer da união dos personagens o caminho para salvar a floresta, deixou uma mensagem que ultrapassava os limites do palco: a defesa da vida e do espaço coletivo depende da capacidade de agir em conjunto.

Recuperar essa experiência é devolver à história do teatro cajazeirense uma de suas passagens significativas — uma criação que uniu fantasia, reflexão social e o desejo de ampliar os horizontes da arte para as crianças do sertão.

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REFERÊNCIAS:
- Cultura e política: a criação do Ministério da Cultura na redemocratização do Brasil — revista Tempo Social, USP.
- A reabertura política, de 1979 a 1985 — Memórias da Ditadura.
- Situação ruim da economia nos anos 80 favoreceu o movimento das Diretas Já — Agência Câmara.
- Decreto nº 91.144, de 15 de março de 1985 — criação do Ministério da Cultura.
- Os processos de desenvolvimento e desmatamento da Amazônia — Estudos Econômicos. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

UBIRATAN DI ASSIS e a transformação cultural da AUC dos anos 80

Uma página importante na história do antigo movimento estudantil de Cajazeiras.


A história da Associação Universitária de Cajazeiras (AUC) não pode ser compreendida apenas pelos registros administrativos, pelas disputas internas ou pelas dificuldades materiais enfrentadas pela entidade ao longo de sua existência. Até porque a entidade nunca tene um patrimônio físico, tampouco material. Apenas tinha um fichário com perfis de seus associados, muitos preenchidos ainda a caneta esferográfica.

Nesse modelo adaptativo do seu tempo é necessário observar, também, o papel desempenhado por aqueles que procuraram ampliar seus horizontes, atribuindo-lhe novas funções e aproximando-a da vida cultural da cidade. Nesse contexto, destaca-se a atuação de Ubiratan di Assis, (Bira), como era conhecido na época, cuja passagem pela presidência da AUC representou, segundo a memória de sua atuação, um momento de valorização das artes, da produção cultural e da participação dos estudantes na vida intelectual de Cajazeiras.

Antes, porém, o que compreendia a AUC restringia-se quase somente às semanas universitárias que a instituição realizava uma vez por ano. O perfil dessas semanas apresentava atividades lúdicas e recreativas, tais como: torneios de futebol, jogos na Praça João Pessoa, exibição de um filme indicado pela programação em um dos três cinemas que havia na cidade, um dia de ação à saúde – com verificação de pressão, glicemia e distribuição de panfletos com orientações de prevenção –, uma apresentação teatral no Colégio Diocesano e o baile de encerramento no Cajazeiras Tênis Clube.

Três matérias jornalísticas publicadas em A União, preservadas nos arquivos e em nosso caso, nos recortes do jornal em nosso poder, ajudam a compreender o ambiente em que se desenvolveu essa experiência. Embora tratem de assuntos distintos, elas revelam uma associação envolvida em disputas políticas internas, preocupada com sua organização institucional e empenhada em conquistar condições materiais para continuar funcionando. Claro, era regida por jovens preocupados mais em viver seus momentos do que se apegar as coisas materiais. Lidas em conjunto, essas notícias oferecem elementos para situar a gestão de Bira em um período de tensões, mas também de afirmação da identidade da entidade.

acervo: cleudimar ferreira

A primeira matéria, intitulada “A AUC entra com ação contra Ubiratan”, registra o conflito entre o ex-presidente e a direção que o sucedeu. O texto informa que a disputa chegou à esfera judicial e que a legitimidade das decisões tomadas por Bira estava sendo contestada pelos novos dirigentes. A notícia menciona, ainda, a gestão 1978/1979 e a situação de Ubiratan no quadro da associação após 27 de julho de 1979. 

O episódio demonstra que sua saída da presidência não ocorreu sem divergências. Entretanto, é importante distinguir o registro jornalístico dos conflitos da avaliação histórica de sua contribuição. A existência de uma disputa administrativa não apaga, por si só, o trabalho realizado durante uma gestão, assim como as acusações formuladas por adversários não devem ser tomadas, automaticamente, como expressão definitiva dos fatos. Para compreender a importância de Bira, é preciso considerar também aquilo que sua atuação deixou como referência para a história cultural da cidade. 

Essa dimensão aparece de maneira mais direta na segunda matéria, intitulada “Ex-presidente da AUC desfaz as acusações de opositores”. Nela, Ubiratan apresenta sua defesa e contesta as críticas dirigidas à sua administração. Entre os argumentos registrados pelo jornal, afirma que a AUC não deveria se envolver em política partidária, defendendo uma entidade voltada à integração dos estudantes e ao fortalecimento de suas atividades.

acervo: cleudimar ferreira

O texto também registra sua preocupação com o desenvolvimento físico, moral, cultural e social da associação. Bira procura justificar as decisões tomadas durante sua gestão, menciona as dificuldades financeiras e administrativas e defende a necessidade de soluções para os problemas da entidade. A matéria revela, portanto, um dirigente interessado em apresentar publicamente sua versão dos acontecimentos e em preservar a legitimidade do trabalho que havia realizado.

Mais do que uma simples resposta aos adversários, essa declaração permite perceber uma concepção de associação universitária que ultrapassava as tarefas burocráticas. A AUC poderia ser um espaço de encontro, formação, convivência e expressão dos estudantes. E é justamente nesse ponto que ganha importância a contribuição cultural atribuída à gestão de Bira.

Conforme a memória de sua atuação, Ubiratan foi o presidente que mais claramente imprimiu à AUC um caráter cultural, priorizando a realização de eventos artísticos e ampliando a presença da entidade na vida cultural de Cajazeiras. Entre essas iniciativas, merece destaque o Festival Regional da Canção no Sertão, além de exposições de artes, apresentações teatrais e outras manifestações que abriram espaço para a criatividade, a sensibilidade e a participação de artistas e estudantes.

Essas atividades tinham um significado que ia além do entretenimento. Em uma cidade cuja história está profundamente ligada à educação, a uma tradição de formação intelectual e à efervescência dos grupos artísticos, promover festivais, teatro e artes visuais significava oferecer oportunidades de expressão e estimular o contato da comunidade com diferentes linguagens culturais. A AUC, sob essa perspectiva, deixava de ser apenas uma organização representativa dos universitários para atuar também como agente de dinamização cultural.

O Festival Regional da Canção no Sertão, em particular, representa um marco importante nessa lembrança. Um evento dessa natureza podia reunir intérpretes, compositores, músicos e apreciadores da canção, contribuindo para a circulação de ideias e para o reconhecimento de talentos. Ao abrir espaço para a música e para outras manifestações artísticas, a associação ajudava a fortalecer um ambiente em que a juventude não se limitava a acompanhar a cultura produzida em outros lugares, mas também podia participar de sua criação e difusão.

acervo: cleudimar ferreira

A terceira matéria, “Sede de Associação Universitária será construída em breve”, amplia o quadro histórico. A notícia informa que a sede provisória da AUC, instalada em galpões da Rede Ferroviária Cearense alugados pela entidade, havia sido demolida por determinação da administração municipal de Epitácio Leite Rolim, para o alargamento e a continuidade de uma rua. Diante da perda daquele espaço, a associação conseguiu do prefeito a doação de um terreno de 1.600 metros quadrados, onde pretendia construir sua sede própria.

O jornal também menciona os universitários Robson Bastos, diretor de Relações Públicas, e José Moreira Lustosa, vice-presidente, e registra o planejamento de promoções para arrecadar recursos destinados à construção. Entre elas, estava a instalação de uma barraca nas festas natalinas de Cajazeiras, com a venda de comidas, bebidas, artesanato e outros produtos.

Essa notícia revela as dificuldades concretas enfrentadas pela associação para assegurar sua continuidade. A conquista de um terreno e a perspectiva de uma sede própria representavam a busca por estabilidade institucional e por um espaço capaz de abrigar as atividades dos estudantes. Não se deve, contudo, atribuir automaticamente essas iniciativas à gestão de Bira, pois o recorte não estabelece essa relação. Seu valor para a análise está em mostrar o contexto material e organizacional em que a AUC precisava afirmar sua presença.

As três matérias, examinadas em conjunto, revelam uma entidade atravessada por divergências, empenhada em defender sua organização e preocupada em garantir condições para existir. Mas a memória da atuação de Ubiratan di Assis acrescenta a essa história uma dimensão que não se esgota nas disputas registradas nas páginas do jornal: a transformação da associação em espaço de promoção cultural.

É por essa contribuição que Bira merece ser lembrado. Sua importância não reside apenas no fato de ter ocupado a presidência da AUC, mas na marca que deixou ao valorizar a música, o teatro, as artes visuais e os encontros culturais. Enquanto os documentos jornalísticos registram as controvérsias de seu tempo, a memória de suas iniciativas aponta para um legado que precisa ser reconhecido na história cultural de Cajazeiras.

Agora sobre o clima do discurso que propõe a sua volta, resgatar essa trajetória significa compreender que as instituições estudantis também podem desempenhar um papel decisivo na formação cultural de uma cidade. Quando abrem suas portas à arte, criam oportunidades, aproximam pessoas e estimulam a produção de conhecimento e sensibilidade. Foi nessa direção que, segundo a memória de sua gestão, Ubiratan di Assis procurou conduzir a AUC.

Bira, assim, permanece como uma referência de uma época em que a Associação Universitária de Cajazeiras encontrou na cultura uma forma de ampliar sua atuação e de participar mais ativamente da vida da cidade. Uma história que merece ser preservada não apenas como lembrança de um ex-presidente, mas como parte da memória daqueles que fizeram da arte e da cultura instrumentos de encontro, expressão e transformação social.

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domingo, 27 de setembro de 2026

Cajazeiras: uma cidade diante do medo

Rui Leitão



Há noites que o tempo não consegue apagar. Mesmo depois de um século, permanecem vivas na memória de uma cidade, transmitidas de geração em geração como uma história de medo, coragem e resistência.

Amanhã, Cajazeiras rememora uma dessas noites. Completa-se o centenário da invasão da cidade pelo bando de cangaceiros comandado por Sabino Gomes, lugar-tenente de Lampião. Foi uma noite de tiros, incêndios, saques e pavor, mas também de resistência de homens e mulheres que decidiram enfrentar a ameaça que avançava sobre suas casas e suas vidas.

Para marcar os cem anos daquele episódio, a ACAL – Academia Cajazeirense de Artes e Letras, com o apoio da Secretaria de Cultura do Município, reunirá pesquisadores e historiadores no Casarão da Rua Epifânio Sobreira, a partir das 19 horas. Será uma oportunidade para revisitar um dos capítulos mais dramáticos da história de Cajazeiras e devolver às novas gerações a memória de uma cidade que, naquela noite, precisou lutar pela própria sobrevivência.

A programação, organizada pela presidente da ACAL, professora Nadja Claudino, contará com palestras do pesquisador Wesley Rodrigues Dutra, do professor Rigonaldo Pereira e da escritora Fabiana Agra, que fará o lançamento do livro Sabino Gomes: O Carcará de Lampião. Também será exibido o filme O Carcará, baseado na obra literária do escritor Ivan Bichara Sobreira.

O ataque teve grande repercussão na imprensa. O jornal O Nordeste, da Diocese de Fortaleza, foi o primeiro a noticiar o acontecimento. Na edição do dia seguinte, estampou uma manchete que registrava a dimensão do episódio: “A próspera cidade de Cajazeiras, na Paraíba, é atacada pelo grupo de Sabino Gomes”. As primeiras informações chegaram por telegramas enviados de Lavras de Mangabeira. A notícia descrevia uma cidade surpreendida pela chegada dos cangaceiros. O medo, certamente, espalhou-se pelas ruas à medida que os estampidos dos rifles anunciavam a presença do bando.

Por volta das 23 horas, quando o grupo chegou à Rua Sete de Setembro, um estrondo rompeu novamente o silêncio da noite. Uma explosão na Usina de Força e Luz, instalada ao sopé do Açude Grande e dirigida pelo técnico José Sinfrônio, produziu tamanho impacto que os cangaceiros imaginaram estar diante da chegada de reforços policiais. O barulho inesperado contribuiu para o recuo do bando.

Foram mais de cinco horas de pavor. Enquanto os homens resistiam, famílias inteiras procuravam fugir da cidade. Mulheres, crianças e idosos buscavam abrigo nas proximidades, tentando escapar da violência que tomara conta das ruas. E, no meio daquela noite de angústia, Dom Moisés Coelho, bispo da Diocese, permaneceu em oração.

O ataque de Sabino Gomes não foi apenas um episódio da história do cangaço. Foi uma experiência vivida por uma comunidade inteira. Uma cidade que, durante algumas horas, conheceu o medo de perder suas casas, seus familiares, seus bens e a própria tranquilidade. Ao longo do tempo, escritores e pesquisadores registraram diferentes aspectos daquele acontecimento. Cada relato acrescentou uma peça à memória coletiva de Cajazeiras.

Agora, cem anos depois, a ACAL abre novamente essa página da história. Não para cultuar a violência do cangaço, nem para transformar a tragédia em lenda, mas para compreender o que aconteceu e preservar a memória daqueles que viveram aquela noite. Porque o tempo passa, as testemunhas desaparecem, as casas são reconstruídas e as ruas mudam de aparência. Mas uma cidade também é feita das histórias que guarda. Cajazeiras precisa lembrar daquela noite.

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sábado, 26 de setembro de 2026

Reflexões sobre os atentados no Cine Teatro Apolo XI, em Cajazeiras e no Riocentro, no Rio de Janeiro


Imagens do atentado no Riocentro. Fotos: Arquivo Histórico

Na noite de 2 de julho de 1975, o silêncio do Sertão paraibano foi abruptamente quebrado no centro de Cajazeiras. Logo após a exibição do filme Sublime Renúncia, quando o público já havia sido dispersado do auditório do Cine Teatro Apolo XI, o encontro fortuito com uma espécie de bolça escolar deixada debaixo da cadeira habitualmente usada por Dom Zacarias culminou em uma explosão com capacidade de vitimar dois funcionários do cinema.

No caso do parágrafo anterior, o artefato vitimou fatalmente o soldado Altino Saturnino da Silva e o funcionário Manuel Justino Conrado, além de deixar dois feridos. O episódio, que ganhou repercussão nacional, guarda uma ligação profunda e inquietante com outro momento sombrio da história recente do país: a explosão no estacionamento do centro de convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, ocorrida na noite de 30 de abril de 1981 durante as celebrações do Dia do Trabalhador.

Separados por quase seis anos e mais de dois mil quilômetros, os dois atentados desenham uma linha contínua da atuação clandestina da extrema-direita e de setores da linha-dura das Forças Armadas durante a ditadura militar brasileira. Ambas as ações fundamentaram-se em táticas terroristas voltadas a alimentar o clima de ameaça e instabilidade, buscando frear os movimentos de abertura política ou intimidar vozes dissonantes e espaços de resistência.

Além da tensão política, Cajazeiras vivia um período de efervescência cultural e artística marcante, transformando a cidade em um polo de resistência no interior do Nordeste. O teatro local mantinha intensa produção com a montagem de peças de forte teor político-ideológico, impulsionadas pela atuação engajada de grupos como o GRUTAC, METAC e o Grupo CAJÁ.

Esse ambiente era fortalecido pela realização dos Festivais de Poesia, cujos versos e declamações abordavam abertamente os temas da repressão, da censura e do desejo de liberdade, bem como pelo Festival Regional da Canção no Sertão, palco onde compositores e intérpretes utilizavam suas músicas para denunciar e refletir sobre o momento político vivido pelo país.

No caso fluminense, o alvo era um festival de música que reunia milhares de jovens e expressivos nomes da MPB engajados na oposição. No Sertão paraibano, o alvo da bomba era essa própria efervescência política e cultural promovida no espaço físico de um cinema pertencente à igreja de Cajazeiras.

A cidade vivia uma conjuntura sociopolítica singular, marcada pela convivência entre um bispo de perfil tradicionalista, Dom Zacarias Rolim de Moura, e uma marcante presença de padres da ala progressista da Igreja Católica, muitos deles vindo de missões na Itália.

Esses religiosos mantinham forte engajamento em causas sociais e utilizavam com frequência programas discursivos da Rádio Alto Piranhas, emissora da própria diocese, como veículo de formação crítica e apoio aos direitos da população local, o que despertava, talvez, a constante vigilância do aparato de inteligência do regime. 

O vínculo dos padres estrangeiros com a igreja católica cajazeirense foi rompido pela proibição temporária, pela diocese, do espaço radiofônico que muitos usavam na Rádio Alto Piranhas. O recorte de jornal que segue é uma prova desse momento. Ele é parte de uma matéria com o título: “Dom José não vai tomar posição no caso de Cajazeiras”, publicada no Jornal A União da edição de sábado, 24 de maio de 1980, página 5.

Recorte regista o corte dos programas de radio, feitos 
pelos padres italianos na Rádio Alto Piranhas

A logística e as condições operacionais para a realização do atentado no interior do solo paraibano contavam com um terreno amplamente aparelhado pela presença militar. Para se ter uma ideia, Cajazeiras abrigava nesse tempo a guarnição do Tiro de Guerra, composto de um sub tenente, um sargento e um pelotão de cem soldados recrutas que funcionava como ponto de apoio e monitoramento para as agências de segurança do Estado.

Somava-se a isso a recente conclusão dos trechos locais da BR-230, a rodovia Transamazônica, cujas obras de infraestrutura mobilizaram o 1º Batalhão de Engenharia de Construção do Exército. A intensa circulação de comboios e máquinas, a forte presença de contingentes militares e a abundância de artefatos explosivos de demolição colocados à disposição das frentes de engenharia criaram o ambiente ideal de acesso a insumos controlados, permitindo o trânsito e a atuação ostensiva de agentes da repressão sem levantar suspeitas locais.

O paralelismo entre o Sertão e a capital fluminense se consolida de forma contundente também no manejo das investigações e no desfecho reservado a ambos os crimes. No Riocentro, a intenção de explodir o artefato dentro do pavilhão lotado para culpar a esquerda radical desmoronou quando a bomba detonou (para a felicidade dos artistas e do público presente) precocemente no colo do próprio sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, levando o comando militar a forjar um Inquérito Policial Militar de fachada para acobertar os oficiais envolvidos.

Em Cajazeiras, a colocação do explosivo debaixo do assento do bispo serviu para alimentar especulações, semeando suspeitas e acusações direcionadas ao clero progressista, aos movimentos estudantis da região e políticos de tendência esquerdista – como foi o caso do suplente de senador Bosco Barreto.

Para justificar o cerco aos focos de esquerda atuante na cidade e ao mesmo tempo minimizar a propagação do foca nesse contingente ideológico, buscou-se culpabilidade em tudo, até na inteligência popular. Fogueteiros, eletrotécnicos e pseudo de inventores, passaram ser possíveis mentores do artefato. Mas nada ou quase nada, do aparato militar foi destacado nas investigações e interrogatório que se sucederam.

Passados 51 anos, as apurações sobre o atentado ao Apolo XI foram gradativamente paralisadas e empurradas para o esquecimento institucional, assegurando a impunidade dos verdadeiros responsáveis e confirmando o padrão de acobertamento promovido pelo estado brasileiro no período autoritário e com a inoperância dos governos atuais.

cleuduarferreira

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