quarta-feira, 22 de abril de 2026

GRUTAC: o grupo que fez do sertão um palco

cleudimarferreira 




Em Cajazeiras, no alto sertão paraibano, a atividade teatral não surgiu a partir de grandes estruturas ou políticas culturais consolidadas patrocinadas por instituições públicas, sejam elas de que esfera vier. Nasceu da insistência, da necessidade urgente de expressão e da ocupação criativa de espaços improvisados por parte de organizações de jovens, influenciados por atividades lúdicas e artísticas, desenvolvidos nos grêmios estudantis, secundaristas, das escolas na cidade.  

Foi nesse cenário que, por volta de 1973, surgiu o Grupo de Teatro Amador de Cajazeiras - o GRUTAC. Nesse tempo efervescente, experimentado por sua juventude, a cidade já demonstrava vocação cultural, impulsionada por iniciativas educacionais e pela atuação de figuras como Íracles Pires, que ajudaram a estimular o movimento teatral local. Mas foi com o GRUTAC que essa vocação ganhou forma contínua, organização e presença pública.

O surgimento do grupo coincide com um dos períodos mais complexos da história brasileira: os anos conturbados da ditadura militar. Em todo o país, o teatro assumia, ainda que de forma indireta, um papel de resistência. Era arte engajada pura. Na Paraíba, especialmente na capital João Pessoa, grupos universitários e coletivos independentes mantinham a produção artística em meio à censura e à escassez de recursos. No interior, como em Cajazeiras, fazer teatro exigia ainda mais improviso e força de vontade.

Sem teatros estruturados ou apoio institucional, o GRUTAC construiu o seu terreno, a sua trajetória ocupando espaços alternativos. Ensaios e apresentações aconteciam em bibliotecas, escolas, auditórios e ambientes adaptados. O palco era, antes de tudo, uma conquista seja em que lugar fosse, até em um banco de praça

Uma das primeiras montagens do grupo, “Fé-Ré”, levada à cena em 1974 sob direção de Ubiratan Assis, marcou o início de sua projeção no teatro paraibano. A peça participou de festivais e revelou um grupo com ambição estética, mas também enfrentou os limites do período, sofrendo intervenções da censura.

Ao longo da década de 1970, o GRUTAC consolidou sua presença na cena cultural de Cajazeiras. Em 1978, com a montagem do espetáculo “Aí”, o grupo demonstrou maior maturidade artística. O elenco reunia nomes que mais tarde se tornariam referências na cultura local, como Beto Montenegro, Antônio Carlos Vilar e Clizélite Assis. O grupo já não era apenas uma iniciativa experimental - tornava-se um núcleo formador e incentivador.

Sem espaço fixa, fazendo leitura de texto aqui e ali, o GRUTAC transformou a cidade em extensão mambembe de sua prática teatral. Apresentações no apertado auditório do Colégio Diocesano Padre Rolim, na Biblioteca Pública Castro Pinto e em eventos culturais universitários aproximavam o teatro da população e ampliavam seu alcance. A experiência era coletiva, tanto para quem fazia quanto para quem assistia as apresentações.

Mais do que produzir espetáculos, o grupo funcionou como espaço de formação. Jovens interessados em arte via ali um ambiente de referência e aprendizado prático, onde se acumulavam experiência e se compartilhavam processos. Desse dinamismo surgiram novos trabalhos, novos artistas e, posteriormente, outros grupos teatrais que dariam continuidade ao movimento teatral da cidade.

Na primeira metade dos anos 1980, o cenário teatral de Cajazeiras começou a se diversificar. Novas propostas surgiram, o teatro comunitário ganhou força e outras iniciativas de cunho profissional passaram a ocupar o espaço cultural local. Nesse processo de transformação, o GRUTAC perdeu gradualmente seu protagonismo central.

Na segunda metade da década de 1980, o grupo encerrou suas atividades. Não houve um fechamento solene, formal amplamente documentado, mas sim uma dispersão progressiva, comum a muitos coletivos culturais da época, marcado pelo afastamento de seus integrantes e pela mudança no cenário artístico estadual e nacional.

Apesar do fim de suas atividades, o GRUTAC deixou marcas profundas. Sua atuação foi decisiva para consolidar o teatro em Cajazeiras, instigando artistas, criando público e estabelecendo uma tradição que ultrapassou sua existência.

Hoje, sua história sobrevive de forma fragmentada - em fotografias guardadas por ex-integrantes, em programas de espetáculos, em relatos orais e em registros dispersos. A ausência de um acervo institucional faz com que sua memória dependa, em grande parte, daqueles que viveram a experiência.

Ainda assim, sua influência permanece visível. O teatro em Cajazeiras, reconhecido como uma das expressões culturais mais fortes no cenário nacional, carrega diretamente o legado daquele grupo que, sem estrutura e com poucos recursos, transformou o improviso em linguagem e a precariedade em criação. O GRUTAC não foi apenas um grupo de teatro. Foi um movimento. E, mesmo após seu encerramento, continua ecoando na história cultural da cidade que ajudou a moldar.

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terça-feira, 21 de abril de 2026

DOIS RIOS

Cezar Leitão


Essa música é primorosa, tanto na melodia quanto na letra. São seus autores, em parceria, Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis.

“O céu está no chão / O céu não cai do alto / É o claro, é a escuridão”. Quando imaginamos um lugar bom, que nos deixa em paz, vivendo um intenso momento de felicidade, costumamos dizer que “estamos no céu”. Não o lugar que nos espera em outro plano, após a morte, mas aqui mesmo, na vida terrena. Por isso, o “eu lírico” diz que o “céu está no chão”, porque é a ocasião em que experimentamos essa sensação plena de satisfação. Mas ele adianta que “o céu não cai do alto”: essa condição de contentamento, de prazer, precisa ser construída. É necessário saber distinguir os momentos de claridade, em que tudo é mais fácil de conquistar, e os de escuridão, nos quais as dificuldades e os percalços muitas vezes exigem mais esforço e paciência para superar os obstáculos.

“O céu que toca o chão / E o céu que vai no alto / Dois lados deram as mãos”. A realidade e o sonho podem andar de mãos dadas. Um não pode seguir em frente sem o outro. Tudo o que se pretende fazer precisa, antes, ser pensado, sonhado, aspirado.

“Como eu fiz também / Só pra poder conhecer / O que a voz da vida vem dizer”. O “eu lírico” relata sua experiência ao buscar compreender o que a “voz da vida” tem a nos dizer. Somos nós mesmos os construtores de nossa história; portanto, o importante é saber identificar as oportunidades que nos são oferecidas.

“Que os braços sentem / E os olhos veem / Que os lábios sejam / Dois rios inteiros / Sem direção”. Nessa estrofe, começa a se delinear o projeto de vida como a construção de uma história de amor. A unificação de sentidos e sentimentos é simbolizada nas ações dos braços, na percepção dos olhos e nas manifestações expressas pelos lábios, seja na fala, seja na troca de carinho ao se beijarem. Os “dois rios inteiros” representam dois corpos que se encontram em entrega total, mesmo sem saber ainda a direção que irão tomar.

“O sol é o pé e a mão / O sol é a mãe e o pai / Dissolve a escuridão”.

Nesses versos, o “sol” pode ser interpretado como o amor. Ele é, ao mesmo tempo, o “pé”, quando nos permite dar rumo aos acontecimentos, e a “mão”, quando nos faz produzir, moldar e adaptar as circunstâncias aos sonhos que nos impulsionam. É “a mãe e o pai”, como um sentimento que protege e orienta na construção de um destino comum, inclusive dissipando diferenças e incompatibilidades que possam impedir o caminhar conjunto — “dissolve a escuridão”.

“O sol se põe, se vai / E, após se pôr / O sol renasce no Japão”. O amor não morre; pode desaparecer por um tempo, mas ressurgirá depois, independentemente do momento ou do lugar em que volte a aparecer.


terça-feira, 14 de abril de 2026

João Batista de Brito

Foto: Audrey Hepburn e George Peppard em Bonequinha de Luxo


Hoje, 13 de abril, comemora-se o Dia do Beijo. Não sei quem instituiu a data, mas, aproveito o ensejo para repassar alguns beijos famosos na história do cinema, já que o gesto da carícia bucal é tão importante na sétima arte quanto na vida.

Vamos começar do começo? O cinema tinha apenas um ano de idade quando o primeiro beijo apareceu na tela. Produção do Vitaphone de Thomas Edison, com direção de William Heise, o filmezinho de vinte segundos, “The Kiss” (1896), mostrava na tela o que o título diz: os atores maduros May Irwin e John C Rice, felizes e sorridentes, colando os lábios e pronto.

O efeito foi escandaloso e gerou protestos de puritanos indignados por toda parte, muitos considerando o filme “completamente nojento”. Mas claro, ninguém da então nascente indústria cinematográfica levou esses protestos a sério e, fosse o filme curto ou longo, mudo ou falado, o cinema incorporou definitivamente o beijo como um elemento inseparável de qualquer estória, de amor ou não.

Tanto é assim que, duas décadas adiante, o filme “Don Juan” (1926, de Alan Crossland) já continha nada menos que 119 beijos, todos saídos da boca do ator John Barrymore para as suas muitas amadas.

No mesmo ano, 1926, o filme “O diabo e a carne” (de Clarence Brown) já mostrava um suculento beijo de boca aberta, até então, uma novidade na vida erótica do cinema, no caso, entre Greta Garbo e John Gilbert.

Pouco tempo depois disso, em 1930, já vai se ter o primeiro beijo lésbico da história do cinema, quando em “Marrocos”, Marlene Dietrich vestida de homem, beija na boca uma das moças que, no bar onde a cena acontecia, a ouvia cantar e dançar.

Na década de quarenta, um filme “inocente” como “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946) vai produzir o primeiro beijo dentro de uma mesma longa tomada, beijo entre James Stewart e Donna Reed tão apaixonado que o rigoroso Código Hays de Censura – em vigor nos Estados Unidos de 1934 a 1964 - não gostou e hesitou em permitir a exibição.

Neste mesmo ano, o bruxo Hitchcock driblou a cronometragem obrigatória do Código Hays (oito segundos para cada beijo) e fez, em “Interlúdio” (1946), um longo beijo todo quebrado, com intervalos de bocas separadas a cada oito segundos, aliás, efeito mais erótico do que se tivesse sido ininterrupto. As bocas eram de Cary Grant e Ingrid Bergman.

Mas, ninguém tem dúvidas, o beijo mais ousado da época, o que abalou as estruturas do Código Hays, foi o que trocaram Deborah Kerr e Burt Lancaster em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953), vocês lembram, os dois com roupa de banho, deitados um por sobre o outro nas areias mornas de Pearl Harbour, ela confessando a ele, apaixonada, “nunca ninguém me beijou assim, do jeito que você me beija”.

O primeiro beijo interracial vai acontecer logo depois, em 1957, no filme de Robert Rossen “Ilha dos trópicos” (“Island in the Sun”), onde a atriz branca Joan Fontaine é beijada pelo ator negro Harry Belafonte. Conta-se que, depois de distribuído o filme, Fontaine passou a receber cartas de seus fãs americanos, sugerindo que nunca mais se metesse a esse gesto indigno de “kiss a nigger”, expressão onde ´nigger´ é um termo pejorativo para uma pessoa de cor. Obviamente, a maior parte das cartas vinha dos estados racistas do Sul.

Com isso passamos, já na década de setenta, ao primeiro beijo gay da história do cinema, que está no filme inglês de John Schlessinger “Domingo maldito” (1971) e acontece entre os atores Peter Finch e Murray Head.

No mesmo ano, vamos ter o primeiro beijo cinematográfico com grande diferença de idade entre os beijantes. Acho que vocês se recordam da comédia ´mórbida´ de Hal Asby “Ensina-me a viver”, onde a idosa Maude e o adolescente Harold mantêm um inusitado caso amoroso e como todos os apaixonados, trocam um beijo tão quente quanto se fossem da mesma idade.
Hoje o cinema está cheio de beijos de toda espécie e entre os beijantes mais diversos, porém, os filmes citados foram os pioneiros em suas – digamos assim - ´categorias´.
Uma coisa é certa: inovador ou convencional, o beijo é um momento especial da história, gráfico, plástico, fotogênico, que por vezes pode perdurar na memória do espectador mais que o filme.

Marcelo Mastroiani e Anita Ekberg nas águas da Fontana de Trevi em “A doce vida”... Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg no pequeno apartamento de “Acossado”... Gregory Peck e Audrey Hepburn dentro do carro em “A princesa e o plebeu”... Quais as suas cenas de beijo preferidas? Relembre-as e, com certeza, você vai incrementar o seu potencial oscular, no dia de hoje... e sempre.




quinta-feira, 9 de abril de 2026

O COLÍRIO DA PASSAGEM PARA O BREU

cleudimarferreira

Antônio Ferreira de Lira - Tiantonio. Foto 3x4.

Depois de um segundo casamento religioso que não deu certo, meu avô Tiantonio seguiu na sua lida, cuidando do seu pedaço de chão como se fosse a única esperança que ainda trazia um pouco de alento e distração aos seus longos dias de solidão. Agora morando só, mas em contato constante com seus vizinhos e sempre rodeado de amigos, ele também, sagradamente, visitava todas noites a casa de sua única filha, Joana Ferreira, que ficava próxima à sua. Lá, ele jantava, passava as horas e conversava sobre os afazeres de mais um dia de trabalho.

Porém a fatalidade, às vezes, aparece sem dar sinais e o seu preço, como moeda de chegada, costuma ser caro e doloroso. Certo dia, ele, com a disposição de sempre - até desproporcional aos seus anos vividos - e precisando tocar as atividades domésticos, fruto da lacuna deixada por falta de uma companheira, foi 'laxar' uns paus no terreiro da cozinha para abastecer um fogão de lenha que tinha dentro de casa. Não sabia ele que, a poucos minutos, um infortúnio estava para acontecer, que marcaria para sempre os poucos anos que lhe restavam de vida.

Desceu os três batentes da porta que abria para o terreiro e foi até um cepo de jucá que servia como base de apoio para cortar as toras de lenha. Era um trabalho repetitivo, de anos, que ele praticava e no qual não havia errado nunca. Pegou o machado, companheiro de tantos cortes e desceu-o certeiro na primeira tora seco, mas a madeira inanimada, morta, numa secura de rachar, reagiu: uma 'filepa' do pau saltou como uma flecha, atingindo em cheio o seu olho esquerdo. Não furou, mais bateu forte, a ponto de causar um pequeno inchaço.

O que parecia apenas um cisco, um ardor incômodo, logo se transformou em uma inflamação preocupante, com a visão ficando turva e embaraçada. Ao reclamar dos sintomas a Joana Ferreira - o socorro mais próximo nas horas de precisão - ela, ouvindo os lamentos do pai, aconselhou que meu avô quando fosse à Cajazeiras, procurasse um doutor para tratar do olho.

No dia seguinte, pegou carona no primeiro carro que passou na estrada para Cajazeiras. Quando chegou ao seu destino, foi direto para o consultório de Doutor Sabino - único médico oculista que havia na cidade - mas, por um capricho da sorte, o médico não estava para atendê-lo. Sem ter a quem socorrer para mostrar o olho, ele foi aconselhado por pessoas conhecidas a procurar o farmacêutico Francimar - estabelecido na Avenida Engenheiro Carlos Pires de Sá e dono da única farmácia que havia na zona sul da cidade.

Como a botica de Francimar ficava no mesmo trecho que ele sempre fazia para chagar à casa de um dos seus filhos que morava em Cajazeiras, saiu do centro da cidade e se dirigiu a essa farmácia. Ao chegou ao estabelecimento, deu bom dia e, buscando alivio para irritação que o hematoma causava no seu olho, contou ao farmacêutico o que havia acontecido com a sua visão esquerda. O farmacêutico, sem o devido exame, vendeu-lhe um colírio que prometia a cura em pouco tempo. E disse para o meu avô: 

- Seu Antônio, esse é tire e queda. Pingou no olho, em dois dias vai desinflamar.

Mas, não foi bem assim. Chegando em casa, foi fazer uso do remédio e, ao pingar a primeira gota, o mundo do meu avô desabou em chamas. Sentiu um ardor insuportável, seguido de uma dor lancinante e uma visão que se embaçava como a névoa das manhãs nos baixios do Sítio Riacho do Balsamo.

No outro dia, voltou a Cajazeiras e, ao chegar, encontrou o Doutor Sabino no seu local de atendimento. Desesperado, contou sua história ao médico e ouviu uma sentença dura como o chão do seu lugar, com o qual ele costumava lidar: o remédio errado havia queimado o globo ocular do seu olho e a luz daquela visão estava se apagando para sempre. Não havia mais o que fazer. O que começou com uma 'filepa' de pau no olho esquerdo tornou-se um rastro de sombra que não quis parar.

Como se um olho quisesse carregar a dor do outro, a doença passou pela glabela e atingiu o olho direito. Em pouco tempo, o mundo do meu avô - as veredas, o brilho do sol, as cores do seu lugar e o vulto da vegetação do sertão - foi sumindo a cada dia até virar um breu fechado. O homem disposto, que não era de muita conversa, agora tateava o ar em busca das paredes da casa; ficou totalmente cego. Naquela escuridão forçada, o som do vento, dos pássaros, dos animais domésticos e dos selvagens que habitavam as cercanias do Sítio Fuá passaram a ser os seus guias, os olhos que ele já não possuía mais.

As trevas da escuridão total trouxeram consigo um peso que o corpo de Tiantônio não estava acostumado a carregar: a impotência. Ele, que sempre fora o esteio da casa, o homem de pouca conversa e muita ação, viu-se subitamente entregue às mãos da filha, Joaninha. Era ela quem guiava seus passos, quem cuidava das suas feridas e quem tentava dar luz aos dias que se tornaram uma noite eterna.

Sem poder viver a vida social de antes e não conseguindo conciliar os trabalhos braçais que exercia ou corte de lenha no mato, a tristeza foi se instalando. O corpo, privado dos afazeres da roça que era o seu combustível, começou a definhar. Doenças do corpo e da alma se achegaram, se alojaram, aproveitando-se daquela imobilidade forçada. Seu Antônio Ferreira - meu avô Tiantonio - acabou falecendo, deixando para trás o Sítio Fuá, os amigos, o arrependimento mudo pelas desatinos cometidas em vida e a saudade nos olhos de quem ficou.

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Ilustração: Foto da ficha de filiado no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cajazeiras. Colaboração: Rildo Soares.

domingo, 5 de abril de 2026

O LEGADO DOS BISPOS VERMELHOS

Rui Leitão


Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) 
e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará)



​A Igreja Católica exerceu papel preponderante na concretização do golpe de 1964. Estimulada pelo discurso de que o país vivia sob a ameaça de um regime comunista, a instituição apoiou os militares na instalação do novo governo.

Entretanto, com o passar dos anos, percebeu o equívoco cometido e passou a adotar uma postura crítica à ditadura. Ganhava força o grupo progressista do clero, que decidiu combater as violações aos direitos humanos e a prática da tortura utilizada para extrair informações dos opositores do sistema. A Igreja abandonava, assim, sua postura secular como instituição elitista e conservadora para aproximar-se das classes populares em defesa da justiça social.
No Nordeste, três bispos destacaram-se como líderes religiosos que denunciavam as torturas e a violência repressiva imposta pelo governo militar. Por isso, passaram a ser chamados de “bispos vermelhos”. Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará) eram apontados como expoentes da esquerda católica.
Eles enfrentaram a ditadura com coragem. Pregaram a reação ao regime e incentivaram a juventude a se rebelar contra a repressão. Apoiaram sindicatos e cooperativas na assistência aos trabalhadores, em especial aos camponeses. Defendiam a conscientização política do povo como forma de fortalecimento diante do regime totalitário. Embora recebessem frequentemente mensagens ameaçadoras, não se acovardaram e desafiaram os detentores do poder.
Na mesma noite em que Geraldo Vandré se consagrava no Maracanãzinho com a música que se tornaria o hino da resistência, Dom José Maria Pires proferia uma palestra na Faculdade de Direito da UFPB. Ao ser advertido por um estudante sobre a presença de agentes do DOPS, o arcebispo afirmou categoricamente que a presença policial não deveria constranger ninguém, pois eles ouviriam verdades sobre os problemas brasileiros.
Dias depois, na sede do Sindicato dos Vendedores Ambulantes, Dom José realizou uma de suas conferências mais corajosas daquele ano. Começou afirmando:
“O atual governo não é cristão. Neste sistema de privilégios de um pequeno grupo em detrimento de uma maioria faminta e analfabeta, não podemos ver uma maneira cristã de governar. É indispensável que ataquemos os erros políticos e econômicos, sem atacar as pessoas. Não somos contra ninguém; somos contra situações.

Precisamos de sindicatos fortes, abrigando o maior número de pessoas conscientizadas politicamente. O ideal é que caminhemos com inteligência, pois não é com fuzis nas mãos que mostraremos que temos razão. Não há dinheiro no mundo que possa comprar nossa liberdade ou a contribuição de amor que queremos dar para melhorar a situação de nossos irmãos.

Só acredito em mudança quando houver conscientização; não acredito em mudança que não seja pacífica. Contudo, pacífica não significa ser pacifista. Não posso exigir justiça por meios violentos, primeiro porque não condiz com o Evangelho; segundo porque a violência, para nós, agora, seria um suicídio.”
​Discursos como esse faziam com que os militares rotulassem Dom Hélder, Dom José Maria Pires e Dom Fragoso como os “bispos vermelhos”.

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Caiu na rede. Foto da Inauguração do Cristo Rei de Cajazeiras

cleudimarferreira

foto colorizada por IA, a partir da original em preto e branco


O monumento do Cristo Rei, em Cajazeiras, Paraíba - também chamado de Cristo Redentor de Cajazeiras, foi inaugurado em 15 de junho de 1939, durante as celebrações do Primeiro Congresso Eucarístico Diocesano da cidade. 
Ele foi instalado no alto do morro, no ponto mais elevado da sede do município.
O monumento foi concebido como símbolo da fé católica e da proteção espiritual sobre a população sertaneja.
Sua construção ocorreu em um período marcado por dificuldades sociais e climáticas no sertão nordestino, o que reforçou ainda mais o caráter simbólico da obra.
A iniciativa contou com o envolvimento da comunidade local, por meio de doações e esforços coletivos, evidenciando a forte religiosidade presente na região cajazeirense.
Com o passar do tempo, o Cristo Rei consolidou-se não apenas como um marco religioso, mas também como um importante elemento turístico cultural e identitário de Cajazeiras, integrando sua paisagem urbana e sua memória histórica.
Lá de cima do morro, onde o Cristo estar e onde o vento fala mais alto, o silêncio tem mais presença e o Cristo Rei reina absoluto observando a cidade.
Desde 1939, quando foi erguido entre fé e esperança, ele permanece de braços abertos - não como quem domina, mas como quem acolhe.
Naquele tempo, o sertão de Cajazeiras era mais seco, de chão duro, mas silencioso e otimista com relação ao futuro.
E talvez por isso mesmo tenha sido necessário levantar um símbolo tão grande: para lembrar que, mesmo nas dificuldades, a fé haverá de estar presente.
A estátua foi trazida por Silvino Bandeira de Melo - pai do saudoso Dr. Júlio Bandeira de Melo - médico e radialista, para o alto do morro da cidade em cumprimento de uma promessa feita. 
A imagem escultórica - parte do monumento, não foi uma obra autoral única, como a do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.
Pode ter sido feita por encomenda, solicitada pelo prórpio Silvino Bandeira a uma oficina religiosa em Salvador onde era radicado.
As oficinas eram bastante comum naquele tempo e produzido através de moldes de reprodução em gesso ou concreto.
Ou seja, adquirida pronta ou em catálogo de arte sacra. 
Algo usual no Brasil naquele período.
O local é considerado um marco histórico e um ponto turístico religioso, embora tenha enfrentado desafios de conservação.
Até hoje, quando o sol se põe e pinta tudo de dourado, parece que ele continua ali, calado, assumindo a mesma função de sempre, a de guardião da cidade. 

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quarta-feira, 25 de março de 2026

Há 100 anos, Padre Cícero e Lampião se encontravam no Cariri

Paulo Henrique Rodrigues

Foto: Pedro Maia, Museu da Fotografia do Cariri Telma Saraiva.

Era final da tarde de 4 de março de 1926, quando Lampião e seu bando saltavam dos cavalos em Juazeiro do Norte. Vinham a convite do então deputado federal Floro Bartolomeu da Costa. Tinham como missão fazer parte de um exército montado às pressas pelo governo federal para lutar contra o movimento revolucionário comandado por Luís Carlos Prestes.

Lampião não encontrou ‘Floro’, que, doente, tinha viajado a Fortaleza e depois ao Rio de Janeiro, onde morreu no dia 8 daquele mesmo mês. Também não cruzou o caminho da Coluna Prestes, que, naquele momento, já marchava em outro ponto do Sertão. Mas Lampião não perdeu a viagem.

Permaneceria em Juazeiro do Norte até o dia 7, protagonizando uma sequência de acontecimentos, todos pacíficos, que só aumentariam a sua fama.

Na ausência de ‘Floro’, coube ao Padre Cícero encontrar Lampião para entregar a ele a patente de capitão do chamado batalhão patriótico criado pelo governo federal. Gesto que custou caro ao Padim, criticado em 9 de cada 10 jornais que noticiaram aquele encontro.

Lampião fez questão de frequentar as manchetes. Foi em Juazeiro do Norte que o cangaceiro concedeu sua primeira entrevista, feita pelo médico Otacílio Macedo, que morava no Crato e correra à cidade vizinha para encarar um entrevistado temido por todos e cercado de homens armados.

As respostas publicadas em "O Ceará" podem ser encontradas acompanhadas de comentários essenciais na literatura do Cangaço de Frederico Pernambucano de Mello, "Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros", e Robério Santos, do recém saído do prelo "O Santo e o Cangaceiro".

Além da entrevista, rica em detalhes, em que Lampião falava sobre a vida no cangaço e celebrava a oportunidade de visitar Juazeiro do Norte e de ver pessoalmente o Padre Cícero, foram registradas também imagens dele.

As lentes de Pedro Maia, que veio do Crato, e Lauro Cabral, vindo de Barbalha, fotografaram um Lampião jovem, com chapéu sem testeira, numa pose que o deixaria famoso. Os originais de Maia estão guardados no Museu Orgânico da Fotografia do Cariri Telma Saraiva, no Crato.

Lampião ainda conheceria uma pessoa que o faria voltar às manchetes com mais força. Benjamin Abrahão, jornalista sírio então secretário do Padre Cícero, após a morte deste, procuraria o cangaceiro e, em 1936, faria um documentário com equipamento de uma empresa que tinha sede em Fortaleza, preciosidade do cinema brasileiro, que hoje conquista admiradores em Hollywood. Um filme que pode ser encontrado no YouTube e que tem tantos detalhes do cotidiano do grupo que levaram Pernambucano de Mello a dizer que Lampião parece ter codirigido a película.

A passagem pelo Cariri durou cerca de 72 horas. Tempo suficiente para que ele entrasse um cangaceiro de rosto quase anônimo e saísse capitão famoso, mesmo que a patente não valesse um pequi roído.

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fonte: Diário do Nordeste.